Paula Herlo mostra como as investigações jornalísticas mudam leis e sistemas

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Paula Herlo mostra como as investigações jornalísticas mudam leis e sistemas

De acontecimentos e detalhes ignorados surgem investigações que movimentam instituições e mudam regras.

No podcast Green Report - Guia simples para se tornar um cidadão ativo, a moderadora Raluca Fișer discute com Paula Herlo sobre investigações que levaram a mudanças na legislação, instituições movidas e pressão pública real.

As investigações não surgem de planos teóricos, mas de perguntas feitas a tempo e da recusa em desistir.

Em um diálogo direto, Paula Herlo explica por que o jornalismo de investigação significa retorno, documentação sólida e a capacidade de acompanhar as consequências, mesmo quando a aposta se torna desconfortável para o poder.

Como Paula Herlo chegou ao jornalismo de investigação

Para Paula Herlo, o jornalismo de investigação não foi uma escolha feita desde o início. Ela não entrou na imprensa com a ideia de fazer denúncias ou expor sistemas corruptos.

A direção foi se formando gradualmente, a partir do trabalho de campo e da necessidade de contar histórias mais amplas.

Um momento-chave foi a campanha „Você sabe o que seu filho ainda faz?”, realizada na Pro TV, sobre crianças deixadas em casa, com pais que trabalham no exterior.

O material foi premiado com um Emmy, uma semana antes do lançamento do programa „România, te iubesc!”.

Naquele momento, ninguém da equipe tinha como objetivo fazer jornalismo de investigação.

O programa começou como um espaço para reportagens mais longas. Assuntos que, no telejornal, não tinham tempo de ser desenvolvidos.

Reportagens sociais, campanhas ambientais, materiais sobre crianças vulneráveis e sobre o sistema de saúde.

A investigação surgiu posteriormente, com a experiência e a aceitação de perguntas mais desconfortáveis.

Paula Herlo diz que foi preciso tempo e coragem. No começo, o confronto direto com as autoridades era difícil.

A ideia de entrar no escritório de um prefeito e fazer perguntas desconfortáveis vinha com muita resistência.

Hoje, as coisas estão diferentes. A exposição pública e o exercício constante mudaram o equilíbrio de forças, e o confronto passou a fazer parte da profissão.

O jornalismo de investigação, no caso dela, não foi uma intenção declarada, mas o resultado de um percurso. De reportagens que exigiram mais contexto e de fios que, uma vez presos, não puderam mais ser deixados de lado.

Como saber que você chegou a um ponto sensível

Para Paula Herlo, o momento em que não é mais bem-vinda em um lugar é um indício claro de que a investigação atingiu um ponto sensível. A reação das autoridades muitas vezes se torna o primeiro sinal de que o assunto incomoda.

„Se não me querem lá, é melhor assim. Estou onde devo”, diz a jornalista.

Ela explica que percebe muito rápido se alguém está escondendo algo, às vezes nos primeiros segundos do encontro.

O principal indicador é a atitude. A forma como ela é encarada. A tensão visível. A hesitação ou rigidez nas reações. Não se trata da emoção natural de alguém que não está acostumado com a presença de câmeras. Essa é fácil de reconhecer.

„Percebo quando uma pessoa está escondendo algo, porque ela tem um tipo de reação que não se consegue ter de outra forma”, explica Paula Herlo.

Para Herlo, esses sinais funcionam como uma confirmação. A investigação está no caminho certo, e as perguntas são feitas onde devem.

A investigação que mudou um sistema - O Registro de Doadores de Medula Óssea

Uma das poucas situações em que ela sente que seu trabalho permanece „para sempre” está relacionada ao registro de doadores de medula óssea.

Uma investigação que começou de uma revolta pessoal e de uma informação descoberta por acaso, fora da Romênia.

„O registro de doadores de medula nasceu de uma revolta pessoal. De uma informação que descobri totalmente por acaso na Espanha e que cresceu porque não desisti”, diz ela.

No começo, ninguém levou a sério. Paula Herlo conta que foi a um grande hematologista e falou diretamente o que tinha descoberto.

„Sabem que não temos registro. Sabem que não podem fazer transplante de medula de doadores não parentes.”

A resposta foi seca. „Assim, e…? Eles não mudaram as coisas há tantos anos e vocês acham que conseguem?”

A réplica de Paula Herlo veio imediatamente.

„Pois morrem pessoas.”

A discussão não levou a lugar algum. Paula Herlo diz que saiu do escritório do professor decepcionada e nervosa, mas sem desanimar. „Peguei minhas coisas e fui procurar outra professora.”

Desta vez, encontrou alguém que entendeu o que ela queria fazer. „Ela me disse: bem, vamos começar.” A partir daí, começou a luta com as autoridades.

A campanha jornalística foi lançada durante o governo de Emil Boc. No começo, o Ministério da Saúde não reagiu. Paula Herlo pressionou publicamente e deixou claro o que aconteceria se as coisas permanecessem paradas.

„Disse que, se nada fosse feito, todas as reportagens terminariam com fotos dos responsáveis pelo governo que causaram a morte dessas pessoas.”

Alguns dias após esses materiais, ela foi chamada ao ministério. Disseram que a ordem de criar o registro de doadores de medula foi assinada. No outono, o registro foi lançado, e as pessoas começaram a se inscrever como doadoras.

Os problemas, porém, não terminaram aí. Apesar de lançado, o registro não funcionava efetivamente. O motivo alegado era a falta de legislação. „Está sendo elaborada legislação”, diziam. Os prazos eram adiados. Já tinha passado um ano sem resultados concretos.

Paula Herlo voltou ao assunto e confrontou diretamente o primeiro-ministro Emil Boc. Seguiram-se discussões a nível governamental e uma reunião com os responsáveis envolvidos.

A mudança decisiva veio com a tomada do Ministério da Saúde por Cseke Attila.

„Ele entendeu de primeira do que se tratava”, conta Paula Herlo. O ministro trocou a pessoa responsável pelo registro e nomeou a doutora Dragomirișteanu, descrita pela jornalista como „muito competente”.

Somente a partir daquele momento as coisas começaram a funcionar.

O campanha foi lançada em 2009, e o registro se tornou operacional em 2011-2012, quando surgiram os primeiros doadores e os resultados reais.

O impacto mais forte veio de uma forma pessoal. O registro salvou a criança de um colega de profissão. Por causa dele, os médicos puderam encontrar um doador compatível na Polônia, e o transplante de medula foi realizado.

„Aqui se fecha o ciclo”, diz Paula Herlo. „Isso me dá a maior satisfação. Que, após todo o meu trabalho de jornalista, algo realmente permaneça. O registro fica para todos os pacientes.”

Uma lei que mantinha as crianças presas no sistema

Outra investigação de impacto, diz Paula Herlo, também começou por acaso.

Inicialmente, ela queria fazer uma reportagem sobre crianças no sistema de proteção. Mas a documentação levou a outro caminho.

O problema não era a falta de pais adotivos. Nem o desinteresse da sociedade.

O problema era a lei.

Paula Herlo descobriu que a legislação de adoções, modificada antes da adesão da Romênia à União Europeia, tinha sido criada para impedir o tráfico de crianças e adoções ilegais internacionais.

O objetivo tinha sido atingido. Mas o preço foi o bloqueio completo do sistema.

A lei se tornou excessivamente restritiva. Para que uma criança pudesse ser adotada, era necessário o consentimento dos parentes até o quarto grau.

Levar meses ou anos para identificar esses parentes. Não havia pessoas suficientes no campo. Os procedimentos travavam. Enquanto isso, a criança crescia no sistema.

„Chegava a criança de seis, sete, oito anos no sistema”, explica Paula Herlo. E a realidade era dura. As famílias na Romênia, em geral, queriam crianças pequenas. As crianças mais velhas ficavam presas.

Não porque não fossem desejadas, mas porque a lei as mantinha presas.

A investigação levou a uma campanha jornalística.

Paula Herlo conta que foi o momento em que decidiu ir além da simples apresentação dos casos. Colocou o foco no mecanismo legal que produzia essa situação e explicou, passo a passo, onde o sistema se rompia.

O esforço teve efeito. A lei de adoções foi modificada. Não de forma definitiva ou completa. Continuou sofrendo alterações posteriormente.

Mas esse foi o primeiro passo. O momento em que saiu de uma área de regulação extremamente rígida, que fazia mais mal do que bem.

Onde o ambiente se posiciona entre os grandes problemas da sociedade

Paula Herlo vê os principais problemas da sociedade colocados em um primeiro nível claro. Saúde e educação. O meio ambiente é uma extensão natural do modo como vivemos e protegemos nossa vida.

Os temas ambientais, ela diz, estão entre os mais bem recebidos pelo público.

Especialmente os relacionados às florestas.

Reportagens sobre desmatamentos ilegais geraram reações fortes, visíveis até nas ruas.

As pessoas reconhecem os jornalistas, falam sobre os temas e reagem emocionalmente.

A explicação está em uma relação profunda com a floresta. A floresta é percebida como um espaço pessoal. Como algo que pertence à comunidade, à infância, à memória. Quando as pessoas veem montanhas ou colinas desmatadas, a reação não é abstrata. É física.

„Como um soco no estômago.”

Essa revolta aumenta quando surge o sentimento de impunidade. Quando as derrubadas são feitas na cara dura, sem vergonha e sem medo. A empatia aparece não só pela causa, mas também pelo jornalista que documenta e assume riscos.

Ao mesmo tempo, Paula Herlo observa uma contradição. Nas cidades, as pessoas reclamam da falta de espaços verdes e dos padrões europeus de área verde por habitante.

Mas, diz ela, o cuidado com a árvore ao lado do prédio muitas vezes falta. No verão, ninguém a rega.

Na floresta, o mesmo. Há uma preocupação declarada, mas menos ação direta.

No entanto, a conscientização aumentou. Principalmente após as pessoas começarem a relacionar desmatamentos com enchentes.

Depois que a água entrou nas casas, muitos entenderam que a floresta cortada atrás da propriedade não é um problema distante, mas um perigo direto.

Todos esses fatores alimentaram um tipo de revolta que ainda existe.

Paula Herlo diz que não lembra de uma reportagem sobre florestas que não tenha tido audiência.

O tema continua tocando um nervo profundo da sociedade romena.

Onde se vê mais claramente o impacto das investigações ambientais

Quando perguntada onde sentiu o impacto mais forte das investigações ambientais, Paula Herlo responde sem hesitar:

„As florestas.”

Mas não só elas. Uma área igualmente sensível é a poluição da água e o problema dos resíduos.

A imagem de um lago cheio de lixo ou de um campo sufocado por resíduos provoca uma reação imediata.

„Faz arrepiar”, diz ela. Não é um problema abstrato, mas visível, que atinge diretamente a percepção de normalidade.

Paula Herlo dá um exemplo recente. Uma postagem sobre um campo cheio de lixo, em uma área próxima de Drobeta-Turnu Severin.

Uma postagem publicada pelo colega jornalista Alex Dima, não em um material de TV, mas em uma página pessoal.

A reação foi imediata. O prefeito se mobilizou rapidamente, reuniu pessoas e limpou a área.
„Se envergonharam”, diz Paula Herlo. Vergonha de que, em 2025, seja preciso um jornalista para mostrar a sujeira para que as autoridades reajam.

A pergunta que ela faz é simples:

„Por que alguém de fora precisa sinalizar um problema óbvio? Por que quem administra o local não vê?”

A diferença, diz Herlo, aparece quando a imprensa intervém. Se um ativista ambiental ou uma ONG sinaliza o mesmo problema, a reação das autoridades costuma ser de indiferença.

Às vezes, até de rejeição. „Não generalizamos”, esclarece Paula Herlo, „mas muitas vezes essa é a reação.”

O medo surge quando a mídia intervém. O medo de exposição. O medo de que a informação chegue mais alto, ao partido, ao governo, a outras instituições.

Um medo que desencadeia, de repente, uma ação.

Paula Herlo também fala sobre o papel das ONGs. Diz que elas têm, na realidade, um grande poder. Mas esse poder vem acompanhado de recursos, conhecimentos jurídicos e muita determinação. Os processos duram anos. Custam dinheiro e energia. Nem todo mundo pode seguir esse caminho.

Da sua experiência, o diálogo baseado apenas na boa vontade não é mais suficiente.

„Se não nos entendemos na conversa amigável, eu processo!”, diz Paula Herlo.

A pressão pública, a exposição e, às vezes, a ameaça de processo tornaram-se instrumentos necessários para que as instituições do Estado se movimentem.

Quão perigoso é o jornalismo de investigação

Paula Herlo diz que o risco existe, mas sua forma depende muito do contexto. A televisão para a qual você trabalha é extremamente importante. Uma redação forte oferece proteção.

Ela não recebeu ameaças diretas de morte. Houve ameaças de processos. „Disse que mal posso esperar para nos encontrarmos no tribunal”, conta ela.

A explicação é simples. As investigações são apoiadas por documentos sólidos. „Sou tão blindada no que digo, que não têm chance nenhuma.”

Um processo significaria apenas prolongar o assunto e atrair ainda mais atenção pública às irregularidades.

No entanto, houve momentos tensos no campo. Momentos em que parentes de políticos ou pessoas alvo de investigações tentaram intimidar. Aparições inesperadas. Pressão. Mensagens do tipo „sabemos quem você é” ou „te procuramos até os parentes de quarto grau”.

Paula Herlo diz que essas tentativas têm efeito contrário. Se você atinge um jornalista, ele não fica sozinho.

„Só reforça os outros. Talvez mais 20 jornalistas.”

A diferença aparece quando não há uma grande instituição de mídia por trás. Aí as coisas ficam realmente complicadas.

Paula Herlo fala sobre o caso Emilia Șercan, que admira profundamente. Após as investigações sobre plágio, ela foi vítima de um abuso grave. Fotos pessoais foram retiradas do computador e tornadas públicas. O processo foi encerrado.

Emilia Șercan protestou dias inteiros, sozinha, na frente do Ministério Público. Depois, jornalistas de investigação foram apoiá-la publicamente.

Para Paula Herlo, aquele caso mostra os limites da proteção institucional.

O Estado demonstrou o quão facilmente pode falhar em proteger um jornalista. Mesmo um conhecido. Mesmo quando as provas são evidentes.

No entanto, as investigações não vêm apenas de grandes redações. Paula Herlo destaca o papel de redações pequenas, financiadas por doações e grants.

O caso dos asilos para idosos, documentado por jornalistas independentes, levou à demissão de Gabriela Firea.

Uma investigação feita pelo Recorder, junto com Ovidiu Vanghele, abalou a administração de Sinaia, com o prefeito Vlad Oprea permanecendo inabalável antes da investigação.

São redações pequenas, com orçamentos frágeis, que conseguiram mudar destinos políticos e administrativos.

Não porque foram protegidas, mas porque os jornalistas foram extremamente apaixonados e perseverantes. „Só jornalistas muito apaixonados podem fazer isso”, diz Herlo.

É uma profissão que traz pressão, medo e vulnerabilidade. Mas também momentos raros em que a verdade muda algo real.

Continuidade das investigações e a pressão que gera mudança

O jornalismo de investigação não termina na transmissão. „O chefe de comunicação é sempre a investigação”, diz Herlo.

Quando um sistema falha, a resposta não é o esquecimento, mas o retorno ao assunto, com nomes, responsabilidades e explicações claras.

A continuidade, na visão dela, é essencial. „É extremamente importante voltar. Mostrar o que aconteceu e por que não foi resolvido.”

Um exemplo é a investigação sobre Iulian Dumitrescu, vice-presidente do PNL.

Paula Herlo diz que ele era „bastante discreto”, embora ocupasse uma posição importante no partido.

A documentação começou de uma curiosidade relacionada a uma região pobre e levou à descoberta de um mecanismo pelo qual controlava o condado por meio de empresas e associados.

„Olhei as empresas em que tinha sido acionista e constatei que muitas estavam fechadas ou dissolvidas. O último proprietário era, sempre, um albanês.”

Todos provinham da mesma cidade. Daí surgiu a pergunta-chave.

„Como é que todas as empresas são vendidas para albaneses? O que acontece lá?”

A investigação continuou com a ajuda de um jornalista albanês que falava romeno e de fontes da área econômica.

„Alguns nem sabiam que eram proprietários na Romênia.”

Assim, foi documentada uma rede na qual as empresas eram transferidas formalmente para que os arquivos desaparecessem e os rastros do dinheiro não pudessem mais ser seguidos.

Paula Herlo explica também como essas investigações são construídas. „É preciso falar com advogados, economistas, pessoas que entendem de análise financeira.”

Nesse caso, ela também conversou com um policial da área econômica.

„Praticamente, a empresa era vendida com todos os documentos. Se você fosse fazer uma fiscalização depois, não encontrava nada”, revelou o policial.

Em Călărași, muitos achavam que o material não seria transmitido. Esperavam pressões.

„Acreditavam que era tão forte que bloquearia a investigação.” Paula Herlo diz que isso não aconteceu.

„Quem ligar? Quem ligar, além de mim?”

A participação de estrangeiros e a ausência de uma cadeia política de pressão tornaram impossível parar o material.

Houve tentativas indiretas. Um ex-colega se recusou a ligar antes da transmissão, mesmo tendo sido pressionado. „Disse que não era bom ligar, que me deixava mais nervosa.”

Após a transmissão, ela reconheceu a pressão. „A pressão foi para que eu te procurasse.”

A continuidade não é um excesso. É a única forma de as investigações produzirem mudanças reais, além do escândalo momentâneo.

OUVIR O PODCAST AQUI:

https://youtu.be/MSiOgv_koXg?si=4f1ZXi2YIRLCuFS6

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