O álcool dividirá o destino do nicotina. Mas isso vai durar muito mais tempo.
Krytyka Polityczna
Varsóvia juntou-se a 180 municípios que nos últimos anos implementaram a proibição da venda de álcool em lojas entre as 22h e as 6h da manhã. Esta faz parte de mudanças maiores, que nos são contadas pela fundadora do escritório Czyste Podróże e autora do livro sobre 30 dias sem álcool. A publicação "O álcool dividirá o destino da nicotina. Mas isso levará muito mais tempo" apareceu primeiro no Krytyka Polityczna.
Honorata bebia. O álcool aliviava os estados de ansiedade, dava força, coragem. Permitía de alguma forma funcionar, então ela se auto medicava com ele. Só que a onda de vitalidade e ânimo era passageira. Depois começava a luta. Com suas emoções e dificuldades. Com a vida cotidiana. Então ela parou de beber. Por um tempo. Parava e voltava várias vezes. Finalmente, ela encontrou uma terapia de dependência. O entorno ficou surpreso: “Não sabíamos que você tinha esse problema!”. Honorata sabia por quê – ela era uma alcoólatra de alto funcionamento clássica. Há seis anos vive em abstinência total.
– Hoje isso já não me afeta mais, quando alguém está comigo na mesa e bebe. Mas no começo foi difícil. Sentia fome – diz Honorata Wąsowicz, fundadora do escritório Czyste Podróże. A ideia de oferecer viagens sem álcool e drogas surgiu do amor por viagens, natureza e da própria experiência de luta contra o vício. É também uma resposta à falta de infraestrutura para pessoas que estão saindo do vício. Porque uma das recomendações principais da terapia é: evitar absolutamente espaços onde há álcool.
– As pessoas participam de encontros do AA ou de terapias em grupo e realmente lutam por si mesmas. Mas na Polônia o álcool está em todo lugar, então depois elas não sabem o que fazer consigo mesmas. Fecham-se em casa, porque não há espaço seguro para elas – diz Wąsowicz.
Na pós-graduação – curso: gestor de turismo e hotelaria – Wąsowicz demorou a revelar sua ideia. Quando finalmente se atreveu, ouviu de um dos professores: “Corajoso!”. Para ele, que organizava e planejava excursões em massa para grandes agências de viagens, a ausência de álcool no espaço turístico era inimaginável. Por quê?
– Porque lá o álcool é um elemento de gestão de pessoas e de suas decisões de compra. Pessoas embriagadas gastam mais dinheiro em coisas extras, excursões – diz Wąsowicz.
Férias sem uma prótese emocional de álcool
Czyste Podróże existe há quatro anos. Nos dois primeiros anos engatinhava, e depois tudo explodiu. Sua oferta também atrai pessoas que não têm histórias de dependência. Aquelas que sentem a pressão de quem bebe e os comentários: “Você não bebe? Está grávida? Doente?”. Pessoas que simplesmente não querem beber e procuram espaço onde ninguém questionará sua escolha – que aliás, parece estar se tornando cada vez mais popular. Wąsowicz vê nisso o mérito de uma consciência crescente da sociedade sobre um estilo de vida saudável, mas também do desenvolvimento da linguagem das emoções. As pessoas têm à disposição psicólogos, psiquiatras, podem buscar ajuda de especialistas. As gerações anteriores não tinham essas possibilidades.
– Em casa não se falava de emoções. O álcool muitas vezes servia como uma prótese. Usava-se para viver a alegria e também a tristeza – diz Wąsowicz, destacando que podcasts e mídias sociais têm um papel importante no movimento de sobriedade crescente. Estas últimas, porém, são uma arma de dois gumes. Frequentemente, sob posts do Czyste Podróże aparecem comentários: “Sem álcool? Que tédio!”, “Se não bebem, denunciam”, “Alguma seita”.
A estigmatização social de não beber é tão forte quanto a do problema do álcool. Marta Jaskulska, psicóloga clínica, autora do livro Viva de forma mais interessante. 30 dias sem álcool, chama atenção para histórias de pessoas que, após meses de abstinência, vão felizes e orgulhosas a uma festa de família. E o que ouvem? “Comigo, não vai brindar?”. Elas cedem à pressão e voltam ao vício.
– O que se faz com as pessoas que não querem beber é simplesmente violência – diz ela.
Ao mesmo tempo, ela aponta a base cultural do fenômeno. Desde criança, vemos a ubiquidade do álcool. Em festas familiares e não só, isso é normal. Além disso, na cultura do consumismo, o álcool é retratado como algo na moda. Comerciais mostram grupos de amigos sorridentes segurando cerveja na mão. Filmes exibem um copo de uísque com gelo ou uma taça de vinho tinto como símbolo de elegância e estilo.
– Claro que isso não é por acaso. Somos codificados pelo que vemos. Eu mesma trabalhei em marketing, infelizmente também em anúncios de fabricantes de álcool, e por anos não vi nada de errado nisso. E isso também é assustador, que eu, que não tenho história de dependência, que pratico yoga, medito, sou uma pessoa muito consciente, tenha caído nesse mito do “copo de vinho tinto saudável” – diz Jaskulska.
Encontrar pessoas que um dia foram próximas
Wąsowicz mostra mais um paradoxo: – As pessoas pensam que o álcool aumenta as sensações, dá um impulso, mas na verdade tira muito mais.
A neurobiologia confirma isso – qualquer quantidade de álcool danifica o sistema nervoso. Além disso, estudos epidemiológicos mostram que pessoas que não bebem têm, estatisticamente, o menor risco de câncer e doenças cardíacas. Um drink padrão tem cerca de dez gramas de álcool puro – aproximadamente o que contém uma taça de vinho de 100ml, meia caneca de cerveja ou um shot de vodka. Um estudo britânico com mais de 36 mil adultos mostrou que apenas um ou dois desses drinks por dia causam a perda de matéria cinzenta em áreas do cérebro responsáveis pela memória, planejamento e controle de impulsos.

Além disso, com o consumo regular, mesmo três vezes por semana uma dose, o organismo começa a produzir mais cortisol, o hormônio do estresse, até mesmo nos dias em que não consumimos álcool. A terça-feira sem vinho fica mais difícil do que era antes de começar a beber nos fins de semana. Pegamos uma taça para voltar ao “normal”. Mas esse normal está cada vez mais longe. O mesmo acontece com a serotonina. O álcool eleva momentaneamente, mas depois a reduz abaixo do ponto de partida. Daí as tardes de domingo com um buraco negro de pensamentos após o vinho de sábado. Por trás de tudo isso, está a bioquímica.
– Nosso cérebro tem uma parte atávica – chamo de parte macaca – e uma parte humana, que é o córtex pré-frontal. A “macaca” responde pela maior parte de nossos comportamentos. E já à noite, quando a parte humana está cansada de decisões, a “macaca” simplesmente assume o controle – explica Jaskulska, acrescentando – O fato de bebemos não é culpa do nosso caráter. É uma condição cultural e bioquímica.
Segundo ela, somos ensinados que, ao abrir mão do álcool, sentimos uma perda. E não gostamos disso. Um copo à noite após o trabalho cria um hábito. Um sinal, uma reação, uma recompensa. Um ciclo fechado. Por isso, a força de vontade sozinha não basta. A “macaca” precisa de outro “banana”.
– Pessoas que, após o experimento Mais Interessante, deixam de beber, escrevem para mim que começam a pintar, aprender línguas, abrir negócios que só sonhavam. Escrevem que começam a se lembrar daquela garota, daquele garoto que eram antes – diz ela.
A proibição noturna de venda de álcool te ajuda?
O projeto Mais Interessante de Jaskulska começou justamente com um experimento – 30 dias sem álcool e uma observação atenta de si mesma. O resultado? Melhor qualidade do sono, aumento de energia, clareza de pensamento e melhor gerenciamento das emoções, que antes eram abafadas por uma taça de vinho. Após o experimento, ela não voltou a beber. Começou a falar abertamente sobre isso e seus efeitos.
Após as primeiras publicações, começaram a chegar mensagens privadas. De amigos mais distantes, mais próximos: “Te apoio muito, mas que essa conversa fique entre nós. Não quero que alguém pense que tenho problema com álcool”. Inicialmente, o projeto vivia nos porões. Por isso, quando trabalha com pessoas que querem mudar sua relação com o álcool, Jaskulska não começa perguntando “Você é dependente?”. Faz outras perguntas: “O álcool te faz bem?”. A primeira fecha a conversa. A segunda abre.
Warszawa, a partir de 1º de junho de 2026, vai implementar uma proibição de venda de álcool em lojas entre 22h e 6h da manhã. A capital se junta a cerca de 180 municípios poloneses que já adotaram essas restrições desde 2018, incluindo Cracóvia, Poznań, Olsztyn e Gdańsk. Wąsowicz e Jaskulska acham que é um bom passo.
– Mas isso deveria acontecer em toda a Polônia. E também nas estações de gasolina e lojas próximas a rotas turísticas. Recentemente, na Rysy, vi uma barraca de cerveja no topo. Está sendo empurrado álcool para cada canto – diz Wąsowicz.
A ideia de tais restrições tem apoio social real. Em uma pesquisa do IBRiS realizada para a PAP em setembro de 2025, 68% dos poloneses foram favoráveis à proibição noturna de venda de álcool em suas cidades.
Jaskulska vê na proibição noturna mais do que apenas menos brigas e intervenções policiais. – Ela elimina essa invisibilidade do hábito, essa falta de reflexão sobre o uso e compra de álcool – diz. – Como a compra precisará ser planejada, veremos nossos próprios padrões de consumo. Veremos também as pessoas que precisam de álcool no meio da noite. E elas mesmas começarão a perceber isso em si mesmas.
Primeiro verão assim
A Organização Mundial da Saúde recomenda aos países membros três coisas: proibição total de publicidade de álcool, redução múltipla do número de pontos de venda e aumento do preço mínimo. A Polônia não implementou nenhuma delas.
O último relatório da Agência Estatal de Resolução de Problemas com Álcool (1º de janeiro de 2022, a agência foi incorporada ao recém-criado Centro Nacional de Prevenção às Dependências), realizado em 2021 em parceria com a Escola de Comércio de Varsóvia, mostrou que o país arrecada cerca de 13 bilhões de zlotys por ano em impostos sobre o álcool. Os custos sociais do consumo excessivo de álcool foram estimados em mais de 93 bilhões.
Segundo uma pesquisa populacional EZOP II de 2022, na Polônia havia 583 mil pessoas que atendiam aos critérios de dependência de álcool. Estimativas anteriores de especialistas chegavam a um milhão. Aproximadamente 100 pessoas morrem por dia na Polônia por doenças relacionadas ao consumo de álcool.
Robert Rutkowski, psicoterapeuta de dependências certificado, coautor do livro Alkoiluzja. Saída da seita alcoólica, afirmou no podcast de Karol Paciorek Imponderabilia que o álcool é a droga mais difícil de abandonar. Mais difícil que heroína e fentanil. A mais opressora, pois a mais comum.
E, no entanto, algo está acontecendo. Dados do Centro Nacional de Prevenção às Dependências indicam que o consumo de álcool na Polônia cai pelo terceiro ano consecutivo – mais fortemente na categoria de cerveja, e mais entre os jovens. Uma pesquisa SW Research para a marca Fritz-kola de novembro de 2024 mostrou que, na faixa até 24 anos, 40% dos entrevistados reduziram o ingestão de álcool. Na faixa de 25 a 34 anos, mais da metade. Festas sem álcool, como raves de café, estão ganhando força. Cada vez mais pessoas públicas dizem que não bebem. Atores que aparecem em comerciais de álcool enfrentam críticas cada vez mais severas.
– Tenho certeza de que o álcool seguirá o destino da nicotina – diz Jaskulska – Só que isso vai durar muito mais. Antigamente, médicos promoviam cigarros como método de emagrecimento. Apresentadores fumavam em estúdios de TV. Hoje, quem fuma é mais comedido, e quase se tem pena.
Wąsowicz não busca uma revolução. – Eu não luto. Não quero mudar o mundo e as pessoas à força. Quero simplesmente criar essa parte do mundo do meu jeito – diz. Sua agenda de viagens está se preenchendo rapidamente. Muitos participantes voltam pela terceira vez consecutiva. Para alguns, são as primeiras férias desde que ficaram sóbrios.
*
Aleksandra Wiśniewska – formada na Escola Polonesa de Reportagem. Vencedora do Voice Impact Award 2025. Seus textos foram publicados, entre outros, no “Tygodnik Powszechny”, na Seção Internacional e na “Revista Psicológica Charaktery”. Combina uma perspectiva global – passou sete anos na Ásia – com sensibilidade às exclusões locais. Interessada na pessoa envolvida no sistema.
A postagem Álcool seguirá o destino da nicotina. Mas isso levará muito mais tempo apareceu primeiro em Krytyka Polityczna.