Se as crianças tivessem direito de voto…
Green European JournalQuerem vencer a crise climática? Combater o autoritarismo? Melhorar a educação e a saúde? Querem menos pobreza e desigualdade, e mais áreas verdes e ruas seguras? Deixem as crianças votarem.
Querem combater a crise climática? Enfrentar o autoritarismo? Melhorar a educação e a saúde? Querem menos pobreza e desigualdade, e mais áreas verdes e ruas seguras? Deixem as crianças votarem.
A crise da democracia surge quando as pessoas deixam de acreditar que ela é capaz de resolver os problemas básicos. Normalmente acontece durante períodos de rápida industrialização, aprofundamento descontrolado das desigualdades, recessão econômica, migrações em massa e guerras – é justamente nesse momento que as democracias retrocedem, sucumbindo aos encantos do autoritarismo. No final, porém, surgem novas normas e práticas democráticas.
A crise global da democracia atual gira em torno de questões que afetam um dos grupos sociais mais desprotegidos, um terço da humanidade – as crianças. Pois são elas que mais sentem os efeitos diretos e de longo prazo das mudanças climáticas. Crianças de países ricos e pobres são igualmente vítimas de uma pobreza desproporcional causada pelo neoliberalismo global. Jovens morrem em massa devido ao terrorismo e às modernas formas de guerra, direcionadas à população civil. E são justamente as novas tecnologias digitais, que causam dependência, manipulam e desinformam, que mais afetam os jovens.
No entanto, as crianças permanecem praticamente invisíveis na vida política. E essa invisibilidade faz com que a questão infantil fique à margem dos processos de decisão democrática.
Prodemocracia: o que é isso?
Nas últimas décadas, círculos acadêmicos e ativistas começaram a desenvolver um movimento chamado prodemocracia (em inglês, childism). Esse movimento é uma reação à situação das crianças no sistema democrático. A prodemocracia critica a sociedade à semelhança do feminismo, do anti-racismo ou do decolonialismo. Busca dar voz às crianças, valorizar suas preocupações e experiências, mudando crenças e estruturas profundamente enraizadas há muito tempo. Seu objetivo é reconstruir normas sociais de modo a incluir realmente todos, independentemente da idade.
O conceito de “prodemocracia” surgiu no início dos anos 2000 na literatura que tratava de uma área emergente da ciência – os estudos sobre a infância, que tentam compreender a agência e as experiências das crianças enquanto crianças, e não enquanto adultos em desenvolvimento. Nos anos 90, esse termo temporariamente se estabeleceu na teoria literária, referindo-se à leitura do mundo como uma criança. Recentemente, passou a ser usado também de forma negativa, assim como os conceitos de “sexismo” ou “racismo”. Contudo, na ciência e entre ativistas sociais, seu significado predominante é positivo: a humanização das crianças.
O principal problema tratado pela prodemocracia é o adultismo profundamente enraizado: a suposição de que a medida do ser humano é o adulto. O adultismo é muitas vezes uma face negligenciada do patriarcado, do poder histórico do “pater”, ou seja, do pai, que não só tem um gênero definido, mas também uma idade específica. Assim como no caso do sexismo, o adultismo está profundamente enraizado na história, na cultura e na linguagem. Em particular, ele se apoia na oposição binária entre os supostamente racionais e autônomos adultos de um lado, e as crianças supostamente irracionais e dependentes do outro. Assim, divide as relações sociais em todos os níveis, desde famílias e comunidades até direitos humanos e legislações.
As próprias crianças também se orientam pelo prodemocracia, embora de forma inconsciente. Os jovens manifestantes pró-clima reivindicam que a política ambiental inclua todos, independentemente da idade. Ativistas sindicais defendem o reconhecimento do trabalho de menores de idade. Os jovens lutam para que nas escolas não haja violência. Crianças trans tentam influenciar como o ambiente reage às suas identidades de gênero. Crianças e jovens de dezenas de países onde existem parlamentos juvenis clamam por uma perspectiva infantil sobre o que significa segurança nas ruas, acessibilidade para pessoas com deficiência ou por uma reforma na educação.
O direito das crianças ao voto
Como grupos marginalizados têm percebido ao longo dos séculos, o direito mais importante que garante a inclusão política é o direito ao voto. Ele não resolve todos os problemas, mas confere àqueles que o possuem o status de cidadãos de primeira categoria, com igual dignidade política. Trata-se do direito de participar na formulação das leis – por isso foi tão difícil conquistá-lo para os pobres, minorias raciais e étnicas, mulheres, pessoas sem propriedade. E é por isso que a Declaração Universal dos Direitos Humanos e o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos exigem “direito de voto universal e igualitário”, sem qualquer limitação de acesso.
Crianças lutam pelo direito ao voto desde pelo menos os anos 90. Organizaram campanhas e tomaram medidas legais em grupos como We Want the Vote e KRÄTZÄ na Alemanha, National Youth Rights Association (NYRA) nos EUA, Young Pirates of Europe (YPE) ou Green Youth. Adultos também apoiaram essa luta, oferecendo suporte acadêmico e político por meio de iniciativas como Children’s Voting Colloquium, Amnesty International UK, Freechild Institute, National Association of Large Families e Child Rights International Network (CRIN). Além disso, crianças e adultos na Alemanha, Califórnia e Massachusetts nos EUA, na Suécia e Canadá entraram com ações contra os governos, reivindicando o reconhecimento do direito ao voto independentemente da idade.
O argumento a favor do direito ao voto sem restrições de idade é que ele é uma condição essencial para o bem-estar tanto das crianças quanto da democracia. A vida e a perspectiva das crianças finalmente seriam levadas a sério pelos políticos, que não mais se baseariam apenas na pressão dos adultos. As democracias, por sua vez, se beneficiariam ao incluir toda a gama de ideias humanas, levando a decisões mais conscientes.
A questão da competência
O principal argumento contra o direito de votar das crianças sempre foi a alegação de que elas não têm competência para votar. Acredita-se que menores de idade não possuem capacidade de pensar democraticamente, não são independentes, e podem ser facilmente manipulados. Assume-se que lhes falta experiência e conhecimento que facilitaria a tomada de decisões difíceis em questões políticas complexas, como guerra, saúde ou imigração.
Essas suposições decorrem de uma má compreensão tanto da democracia quanto da infância. Do ponto de vista dos objetivos da democracia, é importante notar que o direito ao voto consiste em dar voz às opiniões políticas. O objetivo das eleições democráticas não é delegar decisões a pessoas com determinadas competências, mas garantir que os representantes eleitos cumpram suas obrigações perante aqueles a quem representam. Portanto, o direito de votar deveria pertencer a quem deseja influenciar as ações dos governantes.
Se entendermos corretamente a competência para votar, as crianças têm muito mais dela do que se pensa (e os adultos, muito menos). Difícil negar a competência democrática de milhões de crianças que protestam por políticas pró-clima, combatem o racismo, participam de parlamentos infantis, fazem parte de sindicatos de crianças ou de outras organizações políticas. Crianças ao redor do mundo participam de debates políticos durante o jantar, leem ou assistem às notícias, têm opiniões diversas sobre temas atuais. Não há um estágio mágico no desenvolvimento neurológico em que de repente se desenvolve a capacidade de ter opiniões políticas. Essa é uma habilidade geral de qualquer pessoa interessada no que acontece no mundo em sentido amplo.
Já na Convenção sobre os Direitos da Criança, nos artigos 12, 13 e 15, reconhece-se, com base no direito, a capacidade das crianças de participar na vida democrática. Esses artigos garantem às crianças o direito de “expressar livremente suas opiniões em todos os assuntos que as afetem”, “de se manifestar livremente” sem restrições desnecessárias, e “de se associar livremente”. Proibir as crianças de exercerem seu potencial democrático viola todos esses direitos.
Também entre os adultos há grandes diferenças de conhecimento, de competências democráticas e de vulnerabilidade às influências. E, mesmo assim, os adultos podem votar, mesmo sendo ignorantes, facilmente manipuláveis. Têm esse direito, mesmo que sofram de graves distúrbios cognitivos, deficiência mental ou demência. E, como ensina a história, os adultos frequentemente tomam decisões eleitorais trágicas. Além disso, nenhum adulto possui conhecimento profundo sobre todas as questões de uma votação – desde estatísticas econômicas até potencial militar, inovações médicas, informações confidenciais, precedentes jurídicos, etc.
Impedir as crianças de participarem das eleições é, na verdade, uma forma de discriminação sistêmica. Exigem delas um padrão de competência eleitoral que ninguém exige do restante da população. Segundo a definição do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, discriminação significa “tratamento diferente em situações comparáveis sem uma justificativa objetiva e racional”. O direito de voto exclusivo dos adultos exclui as crianças como uma classe de cidadãos por razões que vão além dos requisitos objetivos do próprio voto.
Democracias mais fortes
No entanto, as crianças devem ter o direito ao voto principalmente porque isso melhoraria a vida delas mesmas e dos adultos, além de fortalecer a democracia.
As crianças viveriam em um ambiente político que precisa levar em conta seus interesses e não pode marginalizá-los. Atualmente, elas não podem, com seu voto, remover políticos do cargo, o que faz com que o poder não tenha motivação real para tratar com seriedade as experiências e preocupações dos mais jovens. As crianças podem ser objeto de uma generosidade democrática, mas, assim como os adultos, também deveriam ser considerados sujeitos de agência democrática.
Se as crianças tivessem direito ao voto, certamente pressionariam os políticos, exigindo, por exemplo, que levassem a sério a crise climática, que tomassem medidas contra a pobreza infantil, regulamentassem plataformas digitais, investissem em reformas escolares, garantissem cuidados de saúde contínuos, maior segurança nas ruas, mais áreas verdes. As crianças também teriam maior capacidade de combater a discriminação social, como a proibição do uso de redes sociais, toque de recolher para menores, impedimentos em processos de divórcio, castigos corporais, disciplina escolar, problemas no acesso à saúde, entre outros.
Conceder às crianças o direito ao voto também traria benefícios aos adultos. Todos nós nos beneficiaríamos de uma política climática melhor. O maior apoio econômico das crianças facilitaria a vida dos pais. Professores, com boas soluções educativas, poderiam reagir melhor às realidades e experiências das crianças. Médicos teriam mais recursos para tratar e pesquisar a saúde infantil. Empresários poderiam contratar trabalhadores mais bem qualificados.
Aliás, a própria democracia seria fortalecida – ela passaria a responder de forma mais abrangente às reais condições de vida das pessoas. Os políticos no poder precisariam cuidar dos interesses de todos, não apenas de uma parte dos eleitores. Na tela política, os líderes democraticamente eleitos passariam a ter, figuradamente, um terço de pixels a mais, e essa “maior resolução” lhes daria uma imagem mais precisa. Decisões sobre guerra, gastos públicos e reformas judiciais seriam tomadas com base em um conhecimento mais amplo e rico.
Além disso, o direito ao voto das crianças poderia ser um antídoto contra a atual tendência de retorno ao autoritarismo. O direito de voto universal desafiaria a ideia de que alguns, por sua natureza, estão predestinados a governar os outros. Eliminaria o problema de que, durante um quarto de suas vidas, os cidadãos ouvem que suas opiniões não importam, tornando-os vulneráveis às simplificações autoritárias. Em vez de buscar “pais da nação” exemplares, as democracias se voltariam para defensores dos direitos humanos com visão mais ampla.
Reduzir a idade de voto não basta
A prodemocracia exige não apenas uma mudança na abordagem ao direito ao voto, mas também uma nova compreensão das práticas eleitorais. Os movimentos pelos direitos de voto geralmente também mudam a própria forma de votar. Já passou o tempo em que os proprietários de terras masculinos escolhiam seus representantes no bar.
Primeiro, seria importante reduzir a idade mínima para votar. Nos países onde a votação foi estendida para 16 anos, observou-se que mais adolescentes do que jovens adultos comparecem às urnas, e há uma maior proporção de votos após a maioridade. Com os jovens eleitores, os políticos começaram a considerar mais os interesses das crianças em suas decisões.
No entanto, do ponto de vista da prodemocracia, reduzir a idade de voto ainda é insuficiente. Isso significaria conceder o direito de votar apenas às crianças que parecem já possuir competências típicas de adultos, mas a verdadeira democracia precisa romper as barreiras do adultismo.
Foram propostas algumas soluções práticas para ampliar os direitos eleitorais sem limite de idade. Eu mesmo defendo o voto por procurador. Acredito que todos os cidadãos deveriam ter o direito de votar por procurador desde o nascimento até a morte, e esse voto poderia ser exercido por seu tutor legal – pai, mãe, responsável ou parente próximo. O voto por procurador seria mais comum em casos de bebês, crianças pequenas, crianças e adultos com deficiências cognitivas, idosos com demência ou problemas de saúde. Ao mesmo tempo, todos os cidadãos deveriam poder votar pessoalmente. Qualquer pessoa que desejar votar por si mesma deveria poder fazê-lo, independentemente da idade ou condição de saúde.
Poderia surgir a objeção de que o direito de votar por procurador favoreceria famílias maiores, mas, na prática, seria benéfico às próprias crianças dessas famílias, pois elas merecem sua própria e igual representação. Alguns também podem achar que o voto por procurador é, em princípio, antidemocrático, mas já é utilizado na maioria dos países para adultos com deficiência (ou viajando), então por que não estender também às crianças mais novas?
Até mesmo quem pensa que votar não faz muita diferença deveria refletir: não seria uma injustiça negar às crianças, ou a qualquer grupo, a possibilidade de participar das decisões, ou de pelo menos votar?
A prodemocracia exige uma inclusão sistêmica e o reconhecimento das crianças como sujeitos de direitos. Como o primeiro movimento feminista, afirma que o direito ao voto é um direito humano fundamental. Mas o direito ao voto é apenas o primeiro passo. A prodemocracia inicia uma crítica sistêmica às sociedades baseadas em preconceitos adultistas, nas legislações, nas soluções sociais e políticas, na cultura e na família. Argumenta que as crianças não são cidadãos de segunda categoria, e que elas trazem humanidade às nossas sociedades.