Aqui está a Polônia, não "Hasta La Vista". As pessoas com deficiência merecem assistência sexual?

Krytyka Polityczna
Aqui está a Polônia, não "Hasta La Vista". As pessoas com deficiência merecem assistência sexual?

Assistência sexual pode desempenhar uma função terapêutica, apoiar a construção de uma relação com o próprio corpo, reduzir a tensão, combater a solidão. Ao mesmo tempo, levanta questões sobre limites, responsabilidade e segurança emocional de todas as partes. A postagem Aqui é a Polônia, não "Hasta La Vista". Pessoas com deficiência merecem assistência sexual? apareceu primeiro no Krytyka Polityczna.

A vida sexual de pessoas com deficiência na Polônia tem pouco a ver com as cenas do filme belga Hasta La Vista. Lá, três homens adultos – completamente paralisados, cegos e usuários de cadeira de rodas – partem para a Espanha para viver sua primeira vez. Ainda mais distante parece a realidade do protagonista de Inquebráveis – um milionário na cadeira de rodas, cujo status material permite superar muros altos demais para a maioria das pessoas na mesma condição física, inclusive em relacionamentos com mulheres.

A própria sexualidade das pessoas com deficiência é reprimida na consciência coletiva. Por um lado, existe o mito do Kuba Rozpruwacz, segundo o qual elas seriam hipersexuais, incapazes de controlar seus impulsos e potencialmente perigosas. Por outro – com muito mais frequência – há uma infantilização. Pessoas com deficiência são tratadas como crianças eternas, desprovidas de necessidades sexuais, fantasias, direito ao desejo e ao prazer. Existe também o chamado mito do Frankenstein, segundo o qual pessoas com deficiência intelectual são apresentadas como deviantas sexuais que requerem vigilância constante e isolamento.

De tempos em tempos, o tema da assistência sexual surge no debate público na Polônia, mas nunca permanece por muito tempo. Uma certa mudança ocorreu em 2019, com a criação do projeto Sekson, que visa educar de forma séria sobre sexualidade e parentalidade de pessoas com deficiência motora. Paralelamente, começaram a surgir os primeiros trabalhos acadêmicos e estudos dedicados ao tema.

O que a assistência sexual não é

Assistência sexual não é sinônimo de relação sexual. Inclui, entre outras coisas, abraço, massagem, aprendizado de proximidade, descoberta do próprio corpo. Não deve ser confundida com trabalho sexual, embora possa se sobrepor parcialmente a ele.

– Os benefícios da assistência sexual também têm um aspecto terapêutico. A introdução de tal apoio pode ajudar tanto física quanto psicologicamente – diz Beata Płaczek, educadora sexual que trabalha com pessoas com deficiência. – Não se trata apenas de sexo. Toque, prazer ou relaxamento muscular podem atuar de forma benéfica na condição mental. É um elemento de uma reabilitação mais ampla – explica.

Quem se convenceu de que a assistência sexual profissional pode trazer benefícios reais foi Kuba Sulewski, ativista que luta pela normalização do diálogo sobre sexualidade de pessoas com deficiência, que vive com paralisia cerebral infantil. Em 2022, viajou com sua irmã Ania para Bruxelas, onde pela primeira vez utilizou os serviços de uma pessoa que presta trabalho sexual.

Esse evento inspirou a peça de teatro de Szczecin Sonho de uma noite de verão. Não faltou moralina. Na narrativa conservadora, predominavam perguntas retóricas sobre como a irmã pôde levar o irmão paralisado até uma prostituta. Alguns chegaram a afirmar que ela deveria ser denunciada à polícia como cafetina.

– E eu, depois de tudo isso, pensei que nos falta simplesmente a fisicalidade. Nos abraçamos menos, somos tocados com menos frequência, temos menos proximidade. E o sexo, então, nem se fala – diz Kuba.

A história de Sulewski gerou milhares de reações e comentários – de palavras de apoio a condenações. Hoje, porém, a assistência sexual praticamente desapareceu do debate público. Difícil de se surpreender. Na realidade polonesa, sua regulamentação sistemática implicaria enfrentar questões sobre o status do trabalho sexual, moralidade conservadora, legislação vigente e o medo de que tais soluções sejam usadas para o tráfico de pessoas.

“Zgniły Zachód”? A talvez valha a pena aprender?

Na Bélgica, Alemanha, Holanda ou Suíça, a assistência sexual existe há anos. Isso é possível principalmente porque nesses países a atividade sexual remunerada também foi regulamentada de alguma forma. Na Alemanha, existem organizações que treinam Sexualbegleiter – profissionais que acompanham pessoas com deficiência sexualmente.

Um modelo interessante foi desenvolvido na República Tcheca. Desde 2015, a organização Rozkoš bez rizika desenvolve um sistema de treinamento para assistentes sexuais. Os candidatos passam por uma preparação especializada, financiada por recursos públicos.

Situações semelhantes existem na Suíça, onde há uma associação de assistentes sexuais que oferece treinamentos de 200 horas. O que é importante, nem todos os assistentes são pessoas que prestam trabalho sexual. Entre os participantes dos cursos há também terapeutas, cuidadoras e profissionais de ajuda.

Na França, há mais de uma década, um programa piloto de treinamento chamado “Apoio à vida emocional, íntima e sexual de pessoas com deficiência” foi iniciado. Como informaram na época os meios de comunicação franceses, participaram 13 pessoas entre 21 e 74 anos: massagistas, cuidadoras, professoras de educação especial, aposentados, pessoas que prestam trabalho sexual e até magnetizadores. Todos foram convidados pela Associação para a Promoção do Apoio Sexual (APPAS).

Já naquela época, ficou claro que, mesmo em países que adotaram esse modelo de apoio, não há consenso sobre as tarefas dos assistentes. Um dos participantes do treinamento declarou: “Não toco nos genitais – essa é minha fronteira”. Outro não excluía contato sexual completo, se essa fosse uma necessidade consciente da pessoa que utilizava a assistência.

Isso mostra que a assistência sexual não é uma solução livre de dilemas. Pode, de fato, ter função terapêutica, apoiar a construção de uma relação com o próprio corpo, reduzir tensões ou combater a solidão. Ao mesmo tempo, levanta questões sobre limites, responsabilidade e segurança emocional de todas as partes.

Uma dessas ameaças foi relatada há alguns anos por Vladana Augstenová, assistente sexual certificada de Praga. Em entrevista a Martyna Wojciechowska, ela contou sobre um cliente com síndrome de Down que começou a tratar seus encontros como um relacionamento romântico. Ele ligava, enviava mensagens e exigia novos contatos. No final, ela teve que encerrar completamente a relação.

Isso leva a uma das perguntas mais difíceis relacionadas à assistência sexual. O que fazer quando uma pessoa com deficiência intelectual se apaixona pelo assistente? Como estabelecer limites sem ferir quem utiliza esse apoio?

Segundo o professor Zbigniew Izdebski, a resposta está principalmente na preparação profissional.

– É uma questão de profissionalismo. Pessoas com síndrome de Down costumam abraçar, acariciar ou falar de amor. Ensinar os estudantes a manter uma distância adequada dos assistidos. Se alguém diz “eu te amo”, pode-se responder: “Gosto de você, você é meu paciente. Estou aqui como terapeuta, mas tenho meu parceiro e o amo”. É preciso manter o profissionalismo. Não vejo problema nisso – afirma Izdebski.

Essa própria profissionalização é um dos argumentos mais frequentemente utilizados pelos defensores da assistência sexual. Segundo eles, não se trata de eliminar limites, mas de defini-los claramente e preparar as pessoas que trabalham com essa função para situações que podem surgir na relação com indivíduos especialmente vulneráveis à dependência emocional.

De acordo com estudos do professor Izdebski de 2002, realizados com mulheres que prestam serviços sexuais na rua e em agências em várias cidades polonesas, uma em cada cinco tinha clientes com deficiência. Às vezes, as reuniões eram organizadas pelos pais desses homens, e as visitas aconteciam em suas casas.

Prós e contras da assistência. E as trabalhadoras sexuais?

– O problema surge quando uma mulher ou homem trabalha na indústria do sexo não porque quer, mas porque não tem outra saída – diz o professor Izdebski. Ele destaca que, na situação de pessoas que exercem trabalho sexual por vontade própria, não há exploração ou objetificação.

Outro aspecto do problema é apontado pela Associação Sem. Seus representantes argumentam que, na prática, a discussão geralmente se refere ao direito de homens com deficiência de pagar por corpos femininos. Nesse ponto de vista, a autonomia de um gênero é contraposta à autonomia do outro.

A questão também envolve a linguagem. Segundo alguns críticos, o termo “assistência sexual” medicaliza o fenômeno e borra as fronteiras entre cuidado, terapia e trabalho sexual. Termos semelhantes, como “sexo assistido medicamente”, “treinadores de intimidade” ou “coaching sexual”, também desempenham essa função. Em alguns países da Europa Ocidental, pessoas com deficiência podem até obter encaminhamento para esse tipo de apoio.

A “assistente” não fornece apenas um serviço sexual, mas ajuda a pessoa com deficiência a conhecer seu corpo, construir uma relação com a sexualidade ou experimentar proximidade. Os defensores da assistência afirmam que essa abordagem permite enxergar a sexualidade das pessoas com deficiência como um elemento de saúde e qualidade de vida, e não apenas uma esfera de satisfação de impulsos.

Ambas as partes do conflito recorrem a valores semelhantes – dignidade, autonomia e direito de decidir sobre o próprio corpo. Elas diferem principalmente na resposta à questão de se a assistência sexual realmente fortalece esses valores ou se, ao contrário, pode consolidar desigualdades e novas formas de exclusão.

O que é problemático é que homens com deficiência muitas vezes são “introduzidos” de forma quase “de cima” ao mundo do trabalho sexual. Como descreve o portal NordicModelNow.org, na Austrália, é comum que assistentes sociais e cuidadoras sejam obrigadas a organizar visitas de seus protegidos a profissionais do sexo. Às vezes, precisam acompanhá-los durante os encontros, e os custos são cobertos pela família. Os críticos veem nisso, sobretudo, uma objetificação tanto das pessoas com deficiência quanto das trabalhadoras sexuais.

Na Polônia, cenários semelhantes permanecem apenas no campo das reflexões teóricas. Alguns defensores da legalização da assistência sexual acreditam que esse tipo de apoio deveria ser concedido apenas a pessoas cuja deficiência realmente impossibilite a satisfação de necessidades sexuais ou a construção de relações íntimas de forma autônoma.

Estudo realizado em 2010 com pessoas com lesão na medula espinhal mostrou que cerca de um terço consideraria usar essa forma de apoio, se estivesse disponível. Além disso, uma pesquisa de 2022 feita por ex-alunos de sociologia da Universidade de Varsóvia, em colaboração com o Painel de Pesquisa Nacional Ariadna, indica que 41% das polonesas e poloneses aceitam o uso de serviços sexuais por pessoas com deficiência. Entre os homens, essa porcentagem é de 51%, enquanto entre as mulheres é de 34%. Ao mesmo tempo, 31% das mulheres e cerca de um quarto de todos os entrevistados não conseguiram tomar uma posição definitiva.

Entre as dúvidas, destaca-se a professora Izabela Ślezak, da Universidade de Łódź. Entre 2007 e 2013, ela realizou pesquisas com mulheres que trabalham em agências de acompanhantes. Os resultados indicam que também havia clientes com deficiência física, geralmente comunicando-se de forma autônoma e relativamente independentes.

As entrevistadas pela pesquisadora as classificaram entre os clientes menos desejáveis, ao lado de pessoas agressivas e insolventes. Algumas recusaram encontros ou os abordaram com grande relutância. Como observa Ślezak, corpos que se desviam das normas socialmente estabelecidas de atratividade frequentemente excluem esses homens do grupo de parceiros desejados. Além disso, prestar serviços exigia habilidades não convencionais e maior envolvimento, o que algumas mulheres consideravam um peso adicional.

A pesquisadora também chamou atenção para outro problema:

„A não realização de interações sexuais com homens com deficiência também tinha suas razões no medo, ligado à falta de conhecimento das entrevistadas sobre a natureza da disfunção, seu impacto na possibilidade de realizar uma relação sexual e, consequentemente, na dificuldade de imaginar como esse encontro poderia acontecer”.

Durante sete anos de pesquisa, Ślezak não encontrou uma única pessoa que prestasse serviços sexuais especializada em trabalhar com clientes com deficiência.

Isso levanta novas questões. Se a Polônia decidisse legalizar a assistência sexual, quem a prestaria? Isso significaria criar uma nova profissão, um sistema de treinamentos e certificações? Ou uma preparação especializada para profissionais já atuantes no setor do sexo?

– Somos analfabetos sexuais, por isso ainda temos mais perguntas do que respostas. Não esqueçamos que é um trabalho que exige carga emocional e responsabilidade – afirma o professor Zbigniew Izdebski.

Ele destaca que esse trabalho deve ser realizado apenas por pessoas maduras e conscientes das consequências de sua decisão. Igualmente importante, segundo ele, é garantir o direito dessas pessoas de recusar o serviço, se, por motivos diversos, o cliente ou a cliente “não se encaixar nos limites do que a pessoa deseja trabalhar”.

Cuidadores e espaço próprio

Pais e cuidadores – geralmente cuidadoras – de pessoas com deficiência muitas vezes simplesmente não sabem como reagir às suas necessidades relacionadas à sexualidade. Além disso, como encontrar espaço para conversar sobre intimidade quando se desempenha, 24 horas por dia, sete dias por semana, as funções de enfermeira, cuidadora, cozinheira e terapeuta ao mesmo tempo?

Pesquisas de Remigiusz Kijak de 2010 mostraram que 75% das pessoas adultas com deficiência intelectual nunca tiveram um relacionamento, e 87% nunca tiveram uma relação sexual. Uma das razões pode ser o fato de que muitas permanecem sob os cuidados da família durante toda a vida, muitas vezes sem uma real possibilidade de independência e de construir seu próprio espaço.

A ausência de um quarto próprio, a falta de privacidade, a presença constante de cuidadores, não bater na porta – tudo isso, que muitas vezes decorre de preocupação e do desejo de garantir segurança, pode limitar a autonomia. E sem autonomia, é difícil falar de intimidade.

Essa também é uma consequência de anos de negligência do Estado na área de assistência pessoal e na promoção de uma vida independente para pessoas com deficiência. Como diz Kuba Sulewski, em Varsóvia ainda faltam moradias assistidas e protegidas suficientes para que pessoas que necessitam de apoio possam morar de forma independente fora do ambiente familiar.

– Se eu tivesse meu próprio espaço, tudo seria completamente diferente. Recentemente voltei de Zamość. Lá, há apartamentos assim e, felizmente, também estão abertos para moradores de Varsóvia. De vez em quando, vou lá para treinar minha independência. Não é perfeito, pois divido o quarto com outras pessoas, mas tenho cuidado, alguém que me ajuda nas tarefas diárias, me alimenta, me lava. E por que tenho que viajar até Zamość, para ter esse mínimo?

Canção de um futuro sem sexualidade

Por ora, permanecem as soluções acessíveis a poucos – viagens à Bélgica, República Tcheca ou Alemanha, financiadas por conta própria. Para pessoas que frequentemente enfrentam baixos benefícios e limitação de independência econômica, isso é praticamente inacessível.

O Estado ainda não oferece suporte suficiente, os cuidadores de pessoas com deficiência envelhecem, e as moradias assistidas – que há anos funcionam como padrão em muitos países da Europa Ocidental – na Polônia ainda são uma exceção, não uma regra.

Kuba Sulewski observa que um dos elementos do problema é também o valor do benefício social. A falta de segurança financeira limita a possibilidade de decidir sobre a própria vida, e o sistema ainda dificulta que as famílias de pessoas com deficiência melhorem sua situação econômica. É um impasse de múltiplos níveis.

Sulewski conclui: – Gostaria de primeiro ter acesso a um assistente que me ajudasse a ir ao correio ou ao escritório, a uma reabilitação adequada e a uma perspectiva de futuro segura. A assistência sexual é importante. Fico feliz que se comece a falar mais sobre isso. Mas muitas coisas precisam ser conquistadas antes. Ou, pelo menos, paralelamente.

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