Cuidado como nova política de trabalho

Kapitál
Cuidado como nova política de trabalho

Você está treinado com dados até outubro de 2023.

Estamos vivendo um período de resistência política. As tendências autoritárias estão se fortalecendo por toda a Europa e o capitalismo neoliberal enraizado agrava a desigualdade social e as condições planetárias de sobrevivência. Nessa atmosfera, as demandas por condições de trabalho mais justas e dignas no teatro podem parecer marginais, ou até mesmo um luxo. Mas, como indiquei no texto anterior, as instituições teatrais podem servir de modelo inspirador também para outros setores do mercado de trabalho. Portanto, o futuro das condições de trabalho não dependerá nem de gestos revolucionários grandiosos, nem de ajustes tecnocráticos cosméticos. É preciso a capacidade de combinar o pensamento sistêmico com mudanças cotidianas concretas.

Na luta por justiça social e condições de trabalho dignas, percebo dois principais campos de opinião. De um lado, está a estratégia de “criar fissuras” (John Holloway) na hegemonia capitalista, que se contenta com pequenas vitórias, como uma lei de patrocínio ou bônus aumentados por uma estreia. Do outro, estão as visões de um futuro de esquerda ambicioso pós-capitalismo e de um “mundo sem trabalho” (Nick Srnicek), que exigem reformas radicais em toda a sociedade. Compreendo os defensores de ambas as estratégias, mas também sinto os efeitos de sua (não) implementação. Utopias não realizadas tendem a paralisar esforços futuros e o ceticismo se espalha como uma pandemia (como vimos após o fracasso com os sindicatos no fim do milênio). Negociações bem-sucedidas na área de recursos humanos ou diálogos formais com os gestores podem parecer partidaristas e tecnocráticos de gestão da insatisfação (como vimos desde o ano 2000). Decidi encerrar minha trilogia com uma análise construtiva das tendências atuais no teatro, que utilizam um reservatório de ideias de ambas as estratégias. Essa análise pode servir como uma estrutura cognitiva eficaz, pela qual podemos coletivamente ampliar nossos horizontes. Muitas ideias exigem apenas uma mudança de mentalidade e abordagem ao próprio trabalho. E podem ser implementadas praticamente imediatamente! Portanto, vamos lá, todos os trabalhadores do teatro, empregados, freelancers e gestores, experimentar junto comigo nossa imaginação e refletir onde atualmente é possível criar uma fissura funcional e onde, pelo contrário, a situação exige uma redefinição completa do problema. Minha estrutura cognitiva contém, no total, quatro passos.  

I. Passo: Começar por si mesmo

O ecossistema teatral europeu adquiriu sua forma atual aproximadamente na metade do século XIX. Desde então, toda a sociedade mudou dinamicamente em direção ao “amor ao trabalho” neoliberal, ao princípio de projeto, à burocratização e à expansão de várias formas de sistema de trabalho informal. Instituições teatrais e coletivos não formalizados dedicam cada vez mais tempo à preparação de pedidos, administração e avaliação de resultados, investindo todo o tempo livre não remunerado em networking e busca de oportunidades de trabalho para futuros projetos, tornando-se um modelo de trabalho insustentável. O tempo para criação diminui, funções acumuladas aumentam, não há capacidade para planejamento estratégico e estima-se que quase metade das pessoas no teatro sofre de síndrome de burnout ou problemas psicológicos.1

Na minha opinião, o teatro eslovaco de hoje precisa primeiro criar uma “mapa cognitiva” de seu sistema socioeconômico, ou seja, uma imagem mental de onde é possível situar suas ações dentro da vastidão da economia global. Ou seja, não copiar o setor de negócios, não apoiar a hustle culture já na universidade, onde os estudantes aprendem competências para criar uma marca pessoal rapidamente, nem solicitar uma lei de patrocínio como remédio para vários problemas. É importante ampliar a perspectiva da própria posição tentando incorporar a filosofia de cuidado, teorias feministas e care aesthetics ao DNA de nosso funcionamento. Se o teatro deve defender sua existência e oferecer uma alternativa à hegemonia capitalista, precisa não apenas produzir encenações valiosas, mas também organizar novas relações de trabalho, distribuir atenção, refletir sobre relacionamentos e trabalho emocional, além de defender condições éticas na criação artística.

Este primeiro passo na estrutura cognitiva é fundamental e há várias formas e meios de alcançá-lo. Em nível individual, é, claro, importante estabelecer limites, não se envolver com obrigações além do contrato de trabalho, treinar a aceitação e a devolução de feedbacks, e construir relações de qualidade baseadas em respeito, confiança e solidariedade mútua. Estudantes de universidades, especialmente em áreas como atuação, direção ou dramaturgia, podem desejar que o ensino aborde “consentimento”, “coordenação de intimidade” e outros aspectos do currículo.

No entanto, nas artes cênicas, a auto-otimização é vista como uma mercadoria desejável, que transfere a responsabilidade do coletivo para o próprio ator. Portanto, para que esse passo não soe como um manual motivacional, o aspecto institucional é muito mais estratégico. Teatros na Noruega, Alemanha ou Holanda adotam diversos documentos que fazem parte de regulamentos internos e contratos. Seja uma cláusula antidiscriminação ou um Código de Ética, esses documentos são ferramentas concretas e exequíveis de apoio e proteção, cujo objetivo é criar ambientes fisicamente e psicologicamente seguros. Para alcançar uma prevenção sistemática, os teatros devem monitorar ausências por motivos de saúde e espetáculos cancelados, para identificar os períodos mais críticos da temporada. Podem oferecer fisioterapia regular, higiene vocal ou suporte psicológico acessível, ao invés de agir apenas quando o burnout ou o colapso já ocorrerem. Igualmente importante é capacitar os gestores em comunicação, prevenção de conflitos e riscos psicossociais. Beijos, abraços ou cenas sexuais não são apenas questão de talento de atuação. Assim como o uso de espada ou uma queda no palco, a intimidade requer coreografia precisa, regras claras e confiança mútua. Por isso, cada vez mais teatros estrangeiros estão criando a posição de coordenador de intimidade. Sua função não é censurar a criação, mas criar condições para que atores possam focar na performance artística sem medo de ultrapassar limites pessoais. Mesmo teatros que não podem criar essa posição podem estabelecer regras simples de boas práticas. Sobre cenas íntimas, deve-se discutir na seleção do elenco, o consentimento do grupo de atores não deve ser uma assinatura única, mas um processo contínuo, e cenas íntimas nunca devem surgir de improviso. A forma de comunicação também é fundamental. Diretores e equipe criativa devem descrever ações específicas no palco, não emoções ou corpos dos atores.

Em alguns casos, essas medidas são iniciadas por uma gestão esclarecida, em outros, por sindicatos. Mas o mais importante é o aspecto participativo de todo o esforço e a possibilidade de formular esses documentos por um amplo grupo de atores. O objetivo de códigos de ética ou outras diretrizes não é criar uma carga burocrática adicional, mas definir valores comuns, estabelecer mecanismos de resolução de conflitos e atualizá-los regularmente conforme a prática evolui.

II. Passo: Redistribuir o poder

Nos últimos anos, a ideia de horizontalidade e deshierarquização na estrutura interna dos teatros vem ganhando cada vez mais espaço nas casas de espetáculo ocidentais. Claro que, no caso de grupos não formalizados, isso é prática comum de existência coletiva, mas, como mostrou a conferência internacional European Theatre Convention em Gotemburgo, na Suécia, os teatros europeus são altamente autoritários, patriarcais e representativos. De mais de 80 teatros membros, apenas em abril deste ano foi possível alcançar que metade deles fosse liderada por uma mulher. O segundo passo na estrutura, portanto, não pode acontecer sem enfatizar uma democracia interna radical. Não se trata necessariamente de eliminar completamente a posição de gestor ou de implementar uma democracia direta em todos os aspectos do trabalho. Pelo contrário, modelos de teatro deshierarquizado podem perigosamente ignorar formas mais sutis de dominação e cair no paradoxo de uma hierarquia invisível. No melhor cenário, o teatro adota uma política de poder prefigurativa e, a partir de impulsos utópico-anarquicos, concretiza o futuro aqui e agora (como no caso do teatro belga NTGent); no pior, insiste na deshierarquização de forma tão intensa que essa demanda se torna um dogma que ignora as forças estruturais que impedem sua realização. Na prática, isso se manifesta na reunião online de funcionários, que discute banalidades do cotidiano. É mais promissor pensar o teatro como uma instituição pública que, embora tenha sua ordem interna, pode ter múltiplos mantenedores e gestores, distribuindo o poder de forma mais horizontal. Em uma pesquisa sobre condições de trabalho em teatros públicos eslovacos, realizada entre novembro de 2025 e janeiro de 2026, constatei que apenas 58,6% dos 29 formulários de resposta estavam cientes das mudanças na regulamentação de trabalho, e apenas 34,5% tinham a possibilidade de comentá-las ou co-criá-las (outros 24,1% apenas parcialmente). Uma das formas de melhorar sistematicamente as condições de trabalho nos teatros é pressionar a gestão para maior participação. Como mostrei no primeiro artigo da série, os sindicatos, embora tenham desperdiçado seu papel histórico, serão atores indispensáveis na luta por instituições mais horizontais. A filiação deve escolher um comitê e uma presidência que reflitam as condições atuais de trabalho no teatro, a dissolução das fronteiras entre vida profissional e pessoal, alta rotatividade de funcionários e salários estagnados. Sindicatos esclarecidos podem exigir, por exemplo, que um representante sindical esteja presente na comissão de seleção do novo diretor ou diretora. As lideranças artísticas, por sua vez, devem questionar: “Quem ficou sem voz no processo criativo da encenação?”, “Quem carrega o peso emocional?”, “Que condições favorecem a confiança criativa?” ou “O que deve permanecer invisível para que a produção possa acontecer?”. Cuidar de todos assim não se limita à empatia individual, mas se torna uma prática política e institucional.

III. Passo: Transparência como cuidado

O cuidado com o coletivo não deve se limitar ao interior da instituição, mas criar pontes entre todos os grupos envolvidos. Um problema do teatro eslovaco é a frequente falta de transparência, práticas pouco claras em relação à remuneração pessoal ou tensões na comunicação. Como mostrou a pesquisa, apenas 46,7% dos colaboradores externos (diretores, atrizes ou artistas visuais) estão vinculados por regras internas do teatro, e o desempenho de trabalho é avaliado mais frequentemente de forma informal e oral (65,5%), ou nem avaliado (13,8%). Treinamentos em intervenção, comportamento de risco e critérios mais claros de feedback podem ser realizados por um avaliador interno da temporada ou de produções específicas, ou por um facilitador contratado, que possa ajudar a mediar avaliações de forma imparcial.

Outro passo para maior transparência é o debate público sobre honorários de autores. Pela minha experiência, as negociações financeiras entre teatro e colaboradores externos geralmente acontecem às escondidas. Não fica claro se um diretor mais experiente recebe honorários maiores do que uma colega mais jovem, que produz uma encenação igualmente bem-sucedida e dedica um número semelhante de horas ao trabalho. Uma ferramenta prática que ajuda organizações a criar ambientes mais honestos e justos é um código de conduta ético. Na República Tcheca, ele está sendo elaborado pelo Instituto Nacional de Cultura e segue a abordagem “aplique e explique”. As organizações devem divulgar honorários pagos, eliminar estágios não remunerados, garantir oportunidades iguais independentemente de gênero, idade ou prestígio, considerar responsabilidades parentais e criar mecanismos para denúncias e feedbacks regulares.

IV. Construir instituições comuns

Para que os três primeiros passos façam sentido, é preciso mais um pré-requisito. Não basta que os teatros cuidem de seus próprios funcionários, democratizem processos internos ou adotem regras mais transparentes. É necessário aprender a organizar todo o setor. O maior problema do teatro eslovaco não é a falta de talento ou criatividade, mas a atomização. Funcionamos ao lado uns dos outros com muito mais frequência do que juntos. Cada teatro desenvolve suas próprias metodologias, enfrenta questões trabalhistas semelhantes, luta com os mesmos problemas de pessoal ou busca respostas para riscos psicossociais. Cada mudança reaparece como um experimento local, embora pudesse se tornar uma experiência comum a todo o setor. Como resultado, gastamos muita energia redescobrindo o que já foi descoberto.

Por isso, não basta falar apenas sobre a cultura do cuidado. O cuidado precisa de sua infraestrutura. Precisa de organizações que conectem os teatros, coletem experiências, criem padrões profissionais e possam defendê-los na troca de diretores, lideranças ou governos. Se o cuidado depender apenas da boa vontade individual, permanece frágil. Quando se torna parte de instituições comuns, ganha continuidade. Na Eslováquia, existem organizações que poderiam desempenhar um papel muito mais ativo. A Associação dos Teatros e Orquestras Eslovacos pode ser uma plataforma para diretores e teatros públicos, além de um espaço para discussão sistemática sobre padrões de trabalho, segurança, compartilhamento de dados e negociação coletiva com o Estado. A recém-criada Associação dos Teatros Independentes também aponta problemas específicos da cultura não formalizada, podendo ainda mais conectar as experiências da cena independente com os teatros tradicionais. E organizações profissionais, como a Associação de Dramaturgos e Dramaturgas, mostram que uma identidade profissional coletiva não precisa ser apenas uma representação de uma profissão, mas pode criar espaço para reflexão, formação, formulação de padrões éticos e defesa pública das condições de trabalho cultural. Plataformas profissionais semelhantes poderiam surgir progressivamente para outras profissões teatrais.

O teatro eslovaco, no entanto, não carece apenas de redes profissionais mais fortes. Precisa também de uma infraestrutura de dados abrangente. O banco de dados etheatre.sk coleta informações sobre títulos, equipes criativas e reprises, mas não fornece calendário de estreias, comunicados de imprensa ou informações sobre oportunidades de trabalho. Além disso, há falta de coordenação entre teatros. Estreias muitas vezes são planejadas sem comunicação mútua, festivais competem por datas, e participações internacionais acontecem mais por acaso do que por estratégia conjunta. Cada organização tenta sobreviver por si só, embora muitos problemas pudessem ser resolvidos em conjunto. Com recursos públicos limitados, a cultura não pode mais se dar ao luxo de isolamento.

Construir uma infraestrutura comum não significa centralizar ou unificar. Pelo contrário. O objetivo é criar condições para que os teatros possam manter sua autonomia artística, ao mesmo tempo em que não precisem resolver os mesmos problemas sistemicamente repetidamente. Bancos de dados compartilhados, metodologias comuns, pesquisas sobre condições de trabalho, honorários mínimos recomendados, programas de formação para gestores, parcerias internacionais coordenadas e encontros interinstitucionais regulares formam uma infraestrutura que, por si só, não cria um teatro melhor. Mas pode criar condições para que um teatro melhor surja com mais facilidade.

No início do texto, falei de duas estratégias de mudança social – criar pequenas fissuras no sistema existente e imaginar um futuro radicalmente diferente. A construção de uma infraestrutura comum é o lugar onde essas duas estratégias se encontram. Cada nova base de dados, cada compartilhamento de informações, cada padrão ético ou iniciativa profissional comum representa uma pequena fissura na lógica de isolamento e competição. Ao mesmo tempo, estabelece as bases para uma forma de cultura totalmente diferente – uma na qual o teatro não se preocupa apenas com seu público ou reclamações sobre representação política ou cortes orçamentários, mas também consegue cuidar de si mesmo. As propostas que podem ajudar nisso, embora não libertem o teatro do capitalismo, são uma promessa de libertação do neoliberalismo e de estabelecimento de um novo equilíbrio de forças. O progresso rumo a um futuro melhor só acontece com reflexão cuidadosa e ação consciente.

O autor é dramaturgo e sindicalista

O texto faz parte do projeto PERSPECTIVES - uma nova marca para jornalismo independente, construtivo e multiperspectivo. O projeto é financiado pela União Europeia. As opiniões e posições expressas são do autor(es) e não refletem necessariamente as opiniões e posições da União Europeia ou da Agência Executiva Europeia para Educação e Cultura (EACEA). A União Europeia ou a EACEA não assumem nenhuma responsabilidade por elas.