Posso comer ovos cozidos no sábado? Toda a verdade sobre o Talmud

Krytyka Polityczna
Posso comer ovos cozidos no sábado? Toda a verdade sobre o Talmud

O Talmud é simplesmente um registro da mentalidade judaica da época do início da Idade Média. Somente na mente dos antissemitas, seus trechos fora de contexto se tornam provas da veracidade de teorias conspiratórias sobre a história do mundo. A postagem "Posso comer ovos cozidos no sábado? Toda a verdade sobre o Talmud" apareceu originalmente no Krytyka Polityczna.

„Roubo e testemunho falso tornaram-se hoje a principal ferramenta de ação de uma multidão de três milhões de pessoas, criadas não com os princípios cristãos do Evangelho, mas nas trevas sombrias do Talmude, que permite roubar e mentir, se tiver de lidar com um estranho” – com estas palavras, o padre Stanisław Trzeciak, publicista do “Mały Dziennik”, publicado em Niepokalanów, resumiu a comunidade judaica na Polônia na véspera da Segunda Guerra Mundial. No livro publicado também em 1939, Talmud o gojim e a questão judaica na Polônia, ele argumentava que para os judeus, não apenas as “casas dos gojim” são impuras, mas também os próprios gojim “contaminam o judeu e suas coisas”. Trzeciak dedicou sua obra à “Juventude Polonesa como guia e tarefa para um trabalho árduo de elevação da Polônia”.

Quase 90 anos depois, a narrativa de Trzeciak sobre o Talmude encontra solo fértil na Polônia. O auto-proclamado “especialista em judaísmo” Grzegorz Braun afirma que os judeus são na verdade seguidores do “talmudismo”, uma “doutrina sombria, selvagem, tribal”. A histeria moral também é alimentada por Bartłomiej Piejo, que descreve seu conteúdo como uma ideologia contrária ao “nosso” legado. E perfis pró-palestinos no Instagram compartilham um vídeo com Dan Bilzerian, no qual o influenciador de direita afirma que no judaísmo os não judeus “basicamente não são pessoas”.

Analisei as narrativas que hoje estão presentes no discurso público. Após um tempo na internet, descobri que no Talmude quase tudo pode ser encontrado: desde uma receita de matzá com sangue de criança, passando por Jesus de Nazaré se banhando no abismo de fezes, até uma ilha de Epstein. O excesso de teorias chocantes me deixou tonto. Para ajudar, veio o Museu da História dos Judeus Poloneses POLIN e seu funcionário Piotr Kowalik, Especialista Chefe em Judaísmo e Metodologia.

O que é esse tal Talmude?

Para responder à pergunta, o que realmente é o Talmude, primeiro precisamos recuar um passo e refletir sobre o que é, na essência, o judaísmo.

Resumidamente: o judaísmo é uma religião revelada, cuja base são 613 mandamentos dados aos israelitas por Deus no Monte Sinai após atravessar o Mar Vermelho. As ordens contidas na Torá representam não apenas o fundamento da vida religiosa judaica, mas também abrangem muitas outras áreas: costumes, culinária, práticas diárias. Isso também porque o judaísmo não reconhece a divisão entre o sacro e o profano. Muitas regras relacionadas a questões triviais, como vestuário ou alimentação, visam lembrar às mulheres e homens judeus sua relação com Deus e o papel especial que desempenham como povo escolhido por Ele.

Além do Pentateuco de Moisés, conhecido como Torá escrita, no judaísmo existe também a Torá oral (hebr. Tora she-be’al pe). Segundo a tradição, Moisés recebeu no Sinai não apenas os mandamentos escritos nas Tábuas da Aliança e na primeira seção da Torá, mas também as regras para interpretá-los e aplicá-los na prática. Esse conhecimento deveria ser transmitido oralmente de geração em geração.

Aqui encontramos um dos mitos mais difundidos sobre o judaísmo. Para muitos observadores externos, parece uma religião baseada principalmente na observância minuciosa de regras claramente definidas. Na realidade, a lei judaica há séculos é espaço de intensa discussão sobre o significado de trechos específicos da Torá e a forma de aplicá-los em situações concretas.

Da mesma forma, o Talmude, que é a forma escrita da Torá oral, é por vezes apresentado como uma instrução secreta para conquistar o poder sobre o mundo, em imagens antissemitas. Na verdade, trata-se de um registro extenso de um debate rabínico de séculos: contém argumentos e contra-argumentos, interpretações, histórias, aforismos e reflexões de autoridades religiosas. Não é, portanto, um catálogo de comandos claros, mas um registro de disputas sobre como entender e praticar a lei judaica.

– É importante destacar que, do ponto de vista do judaísmo, o Talmude nem mesmo é um livro sagrado – afirma Piotr Kowalik. – Somente o Tanakh, ou seja, o conjunto de livros que formou a base do Antigo Testamento, é considerado inspirado. A própria Torá oral, que se concretizou nos tratados do Talmude, não é um conjunto de leis, mas um processo, que começou no Sinai. Um processo de contínua investigação, análise e interpretação da lei judaica em um mundo em constante mudança.

No Talmude, encontramos reflexões sobre praticamente qualquer tema que preocupou os antigos estudiosos – desde questões religiosas e morais fundamentais, passando por conselhos médicos, até observações bastante triviais ou simplesmente erradas. De um lado, há máximas elevadas, como: “Quem salva uma vida, como se tivesse salvado o mundo inteiro” (Sanhedrin 37a) ou a famosa regra do rabino Hilel: “O que é odioso para ti, não faças ao teu próximo, eis toda a Torá” (Shabat 31a). Do outro, há sabedorias populares específicas, como a crença de que correr pode enfraquecer a visão (Shabat 113b), o aviso de que comer pão quente atrai pulgas (Pesachim 111a) ou a advertência contra os efeitos nocivos de… beber água à noite (Pesachim 112a). Esses fragmentos não constituem uma lei vinculante – são simplesmente um registro do estado de mentalidade, do conhecimento e dos superstições da época.

– O Talmude é rico em alegorias, anedotas e motivos folclóricos – explica Kowalik. – Algumas passagens podem parecer bizarras, ingênuas ou até infantis. Isso decorre do fato de que o Talmude é um registro autêntico do pensamento humano, com todos os seus erros, armadilhas lógicas e atalhos mentais. Esses trechos extensos e não normativos do Talmude chamamos de agada (hebr. história).

Para complicar um pouco mais: o Talmude na verdade não é um, mas dois. Destacamos o Talmude de Jerusalém e o Talmude Babilônico. O primeiro foi produzido na Terra de Israel, e sua codificação foi brutalmente interrompida pelas perseguições bizantinas. Alguns seguidores do judaísmo acreditam que o Talmude de Jerusalém só será concluído pelo messias prometido. O mais importante na tradição haláchica é o segundo, ou seja, o Talmude Babilônico. É ele que geralmente temos em mente quando falamos de “Talmude”. Os trechos citados neste texto vêm exatamente do Talmude Babilônico.

Codificação do Talmude como resposta à ameaça existencial

Como explica Kowalik, a criação do Talmude entre os séculos II e VI foi uma tentativa de responder à crise que o judaísmo enfrentava na época. Após a destruição do Segundo Templo de Jerusalém pelos romanos em 70 d.C., os judeus perderam seu centro religioso. Muitas leis contidas na Torá escrita estavam relacionadas ao culto do templo: com a perda do templo, surgiu a necessidade de atribuir novos significados a alguns mandamentos religiosos. Além disso, o legado da Torá oral estava em perigo existencial diante das perseguições que, nesse período, os judeus enfrentaram por parte dos romanos. As autoridades religiosas judaicas concluíram que era hora de codificar Tora she-be’al pe, para salvá-la do esquecimento.

– Algumas décadas após a destruição do templo, ocorreu a revolta de Bar Kochba – diz Kowalik. – Os romanos estavam determinados a expulsar os judeus de suas terras, e, como consequência, travaram guerra contra o próprio judaísmo. Naquele período, ocorreram muitos assassinatos de importantes autoridades rabínicas. O judaísmo estava ameaçado de extinção. Os rabinos perceberam que a tradição oral viva, transmitida até então de mestre para discípulo, precisava sair do círculo dos iniciados. Era preciso escrevê-la, pois não se sabia o que viria a seguir.

A parte central do texto é a chamada Mishná (hebr. repetição, ensino repetido). A codificação da Mishná por Jehuda ha-Nasi foi precedida pela organização desse material pelos rabinos tannaitas Meir e Akiva no século II. A Mishná é dividida em seis ordens, correspondendo às seis áreas mais importantes da vida judaica. Ela inclui tratados sobre agricultura, celebração de festas, direito civil, direito penal, sacrifícios e pureza ritual.

– A Mishná foi uma etapa muito importante na codificação do Talmude – continua Kowalik. – Mas ela tratava principalmente de questões relacionadas à Terra de Israel. Com as perseguições romanas, a vida judaica migrou para o espaço da diáspora. Em novas condições, surgiu novamente a necessidade de reinterpretar e comentar os mandamentos, buscando novas soluções para os judeus enquanto comunidade.

Após a revolta de Bar Kochba, o centro do mundo judaico mudou-se para a Babilônia. Lá foi criada uma nova parte do Talmude, chamada Gmara (hebr. conclusão). A Gmara é um registro da discussão rabínica sobre a Mishná. Os rabinos analisam suas regras, as comparam com outras tradições, apresentam argumentos a favor e contra, histórias, interpretações bíblicas e várias questões práticas. É a Mishná e a Gmara que formam o núcleo do Talmude. Seu conteúdo não termina aí: como explica Kowalik, nas páginas do Talmude também encontramos comentários rabínicos posteriores, até os autores do século XIX.

Kowalik mostra-me uma página do Talmude contendo um trecho do tratado Beitza (hebr. ovo). No centro, há um trecho da Mishná, e abaixo, registros da Gmara. Nas margens, comentários rabínicos, incluindo anotações de Rashi e seus sucessores.

– Tenho aqui uma cópia baseada no padrão clássico, que é o Talmude publicado pela editora Wdowa e irmãos Romm, no final do século XIX, em Vilnius – diz Kowalik, mostrando-me o livro. – O próprio texto tem a estrutura de uma cebola: vemos como a tradição se acumula em camadas. Hoje, ninguém acrescenta novos conteúdos às páginas do Talmude nem modifica sua disposição gráfica. Isso, porém, não significa que o processo de talmudização da tradição judaica tenha acabado. Nas edições completas do Talmude, após o término de um tratado, aparecem comentários de autoridades religiosas contemporâneas, e alguns são publicados em livros separados.

O Talmude é o tema favorito dos antissemitas – desde a Roma antiga até Grzegorz Braun

A crise relacionada à destruição do Templo de Jerusalém e às perseguições em massa contra os judeus pelos romanos foi agravada por um fator adicional: o surgimento do cristianismo. Movido por um judeu da Judeia, esse movimento religioso se espalhou rapidamente pelo mundo antigo. No Império Romano, o cristianismo foi declarado religião oficial pelo édito de Tessalônica de 380 d.C.

A religião que surgiu do judaísmo desde o início propagou teses contra os judeus. A narrativa, por exemplo, no Evangelho segundo João, atribuía aos judeus a responsabilidade coletiva pela crucificação do Salvador cristão. Na Primeira Carta aos Tessalonicenses, Paulo de Tarso advertia seus co-religionários contra os judeus, argumentando que “matara o Senhor Jesus e seus próprios profetas”.

O fortalecimento do cristianismo no mundo antigo esteve ligado ao aumento da violência contra os judeus. Em 414, em Alexandria, uma turba provocada realizou um pogrom contra os judeus locais, destruindo suas propriedades e locais de culto, levando muitos a abandonarem a cidade. Ocorreram episódios semelhantes no século V na Síria, Mesopotâmia e Menorca: cristãos tomaram os templos judaicos para transformá-los em igrejas, e os judeus eram frequentemente forçados a se converter ao cristianismo sob pena de morte.

Do ponto de vista do judaísmo antigo, os cristãos fizeram algo que hoje chamaríamos de apropriação cultural: assumiram a tradição espiritual judaica, enchendo seus símbolos com um conteúdo totalmente novo. Aos judeus, atribuíram o papel de enganadores, acusando-os de falsificar a verdadeira essência da Revelação. Portanto, não é de se surpreender que, no Talmude, a polemica contra o cristianismo às vezes adote tons sarcásticos ou até provocativos.

– O Talmude contém palavras de forte crítica a Jesus – afirma Kowalik. – Apresenta-o como um mago treinado no Egito ou como um filho ilegítimo de um soldado romano e Miriam. Essas passagens críticas, porém, requerem contexto: representam um registro de uma disputa acalorada entre o judaísmo e a Igreja primitiva nos primeiros séculos da nossa era.

Por causa dessas críticas a Jesus, o Talmude acabou, com o tempo, no centro do interesse do anti-judaísmo cristão. Em 1272, em Paris, queimaram publicamente 24 carroças de manuscritos do Talmude. Situação semelhante ocorreu em Roma, em 1553. Após a chamada disputa com os seguidores de Jacob Frank, em 1757, o bispo Mikołaj Dembowski ordenou a apreensão e a queima pública de exemplares do Talmude na praça de Kamieniec Podolski. Mais de mil livros foram destruídos na ocasião.

– O movimento anti-talmúdico na Igreja começou no século XIII, com a expulsão do convertido Nicholas Donin da comunidade judaica – explica Kowalik. – Como ato de vingança, ele enviou uma carta ao papa Gregório IX, contendo 35 acusações, nas quais acusava o Talmude de blasfêmia, distorção da Bíblia e ensino de uma moral falsa. Donin fez um diagnóstico claro: o Talmude é o principal obstáculo à conversão dos judeus. Sua destruição deveria abrir caminho para sua cristianização, o que levou à primeira disputa pública na França e à confiscação de livros.

Apesar do passar do tempo e do enfraquecimento do papel da religião no Ocidente, o Talmude continua sendo uma pedra no sapato dos antissemitas, que teimam em distorcer seu significado e destacar trechos controversos, retirados de seu contexto. E a narrativa antitalmúdica cristã, de suas fontes, é ajustada continuamente ao contexto político em constante mudança.

Em 1933, o NSDAP proibiu completamente a impressão e posse de livros do Talmude na Alemanha, queimando exemplares, inclusive na Bebelplatz, em Berlim. Para os nazistas, o Talmude representava uma expressão da natureza inferior, biologicamente determinada, dos judeus. Hoje, as acusações de uma mensagem “demoníaca” do Talmude retornam nas falas de figuras como Grzegorz Braun ou Dan Bilzerian. Essa narrativa habilmente ignora não só o contexto histórico de sua origem, mas também sua característica polifônica, e às vezes até contraditória internamente.

Enquanto isso, a relação real dos judeus com a tradição talmúdica é complexa. Embora o Talmude advirta contra visitar templos cristãos, o principal rabino da Polônia, Michael Schudrich, participou de uma cerimônia na Basílica de Santa Maria em Cracóvia, conscientemente priorizando o respeito ao líder falecido acima do rigor da tradição, o que lhe rendeu críticas de autoridades religiosas mais conservadoras.

Hoje, todas as principais correntes do judaísmo – ortodoxa, conservadora e reformista – reconhecem o Talmude como uma fonte importante da lei religiosa. Sua natureza aberta, baseada em debates de séculos, faz com que diferentes ramos do judaísmo tenham posições distintas sobre questões relevantes na atualidade, como o papel das mulheres, as uniões de pessoas do mesmo sexo ou o uso de dispositivos elétricos. E, no entanto, todos os judeus atuais fundamentam suas opiniões religiosas nas mesmas fontes.

Já é hora de conhecer a verdade

Parafraseando Maria Janion: as teses propagadas pelos antissemitas dizem muito pouco sobre os próprios judeus. Permitem, isso sim, conhecer bem o estado de espírito das pessoas que espalham calúnias antissemitas. O mesmo vale para o Talmude, que é simplesmente um registro da mentalidade judaica da época do início da Idade Média. Somente na mente dos antissemitas, seus trechos fora de contexto se tornam provas da veracidade de uma teoria conspiratória sobre a história do mundo.

O Talmude é uma obra de volume impressionante: uma única edição costuma consistir em dezenas de volumes. Está escrito em dialetos antigos do aramaico e do hebraico, idiomas que poucos dominam hoje. Talvez por isso exista a crença de que o Talmude seja uma espécie de coleção sombria de segredos judaicos, acessível apenas a um círculo restrito de iniciados. Na realidade, é exatamente o oposto: o Talmude foi traduzido para dezenas de línguas, e sua mensagem pode ser conhecida por qualquer pessoa que queira dedicar algum tempo e esforço, mesmo que seja apenas ao adquirir uma cópia publicada pela Pardes. Na internet, também há vídeos e podcasts que abordam o Talmude de forma séria e fundamentada.

Pode-se dizer, portanto, que na visão antissemita sobre o Talmude há uma semente de verdade distorcida. Pois, neste livro, os judeus revelam ao mundo uma coisa que, na essência, é banal: são pessoas iguais a todos os outros. Capazes de fazer o bem e o mal, a maioria de suas escolhas, assim como a maioria das escolhas de outras pessoas, fica entre esses dois extremos. E, assim como os demais, eles se ocupam muito mais de questões cotidianas e mundanas do que de perguntas filosóficas mais fundamentais.

Por fim: uma grande parte dos judeus, incluindo muitos ateus declarados, é composta por pessoas laicas. Essa afirmação é especialmente verdadeira no contexto polonês. Para milhões de pessoas de origem judaica, o conteúdo do Talmude é tão estranho quanto para uma polonesa ou polonês comum. Acreditar que os judeus, enquanto grupo, seguiriam “princípios talmúdicos” é absurdo e revela apenas ignorância de quem faz tal afirmação.

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