O Grande Muro Verde deveria transformar o Sahel. Sem as comunidades locais, será apenas uma promessa vazia?
Krytyka Polityczna
Milhares de dólares não chegam ao destino, as mudas morrem e as instituições internacionais se perdem na coordenação. Na Gâmbia, Níger ou Senegal, os habitantes mostram que a reconstrução da terra deve começar não pelo plantio de árvores, mas pelo fortalecimento das estruturas locais. A postagem "A Grande Muralha Verde deveria transformar o Sahel. Sem as comunidades locais, ficará apenas uma promessa vazia?" apareceu primeiro no Krytyka Polityczna.
Nos anos 50 do século XX, o biólogo britânico Richard St. Barbe Baker propôs a criação de uma faixa de árvores que deveria separar os países do Sahel do deserto que os engolia. Assim nasceu a ideia da Grande Muralha Verde. No entanto, a forma formal do projeto só ganhou definição em 2007, quando foi adotada pela União Africana.
Previa-se a recuperação de 100 milhões de hectares de áreas degradadas, a absorção de 250 milhões de toneladas de CO₂ e a criação de 10 milhões de empregos verdes até 2030. Com o tempo, porém, revelou-se que, em vez de uma única faixa de floresta, surge uma mosaico de milhares de projetos locais realizados em condições políticas, sociais e ambientais muito diferentes.
Hoje, ao redor da Grande Muralha Verde, duas narrativas se confrontam. As instituições responsáveis por sua implementação, como a União Africana e as agências da ONU, destacam os avanços e o potencial do projeto, enquanto parte de pesquisadores independentes apontam atrasos, problemas de coordenação e efeitos limitados. Qual dessas histórias está mais próxima da verdade?
Projeto verde, interesses europeus
A Europa tem interesse na realização da Grande Muralha Verde. O sucesso do projeto poderia reduzir a migração da África, desenvolver a cooperação econômica e fortalecer sua posição na região. No entanto, críticos alertam que, por trás da linguagem da transição verde, também existem interesses econômicos concretos. Espécies plantadas no âmbito do projeto – como a acácia senegalense, o baobá ou o balanites – fornecem matérias-primas valorizadas nos mercados mundiais. Assim, a recuperação do meio ambiente se entrelaça com a lógica de exportação e comércio.
Ainda há um espetáculo colonial antigo sendo encenado na África? Embora um dos principais parceiros financiadores da Grande Muralha Verde seja o Banco Africano de Desenvolvimento, grande parte das decisões sobre a direção do projeto ainda é tomada fora das comunidades locais.
A Dra. Monika Różalska, do Departamento de Estudos Internacionais e Políticos da Universidade de Łódź e membro do Centro de Pesquisas Africanas Jagiellonian, destaca que a Europa ainda tende a tratar a África como um organismo único e homogêneo. Enquanto isso, os países participantes do projeto diferem em condições ambientais, econômicas e sociais, bem como em capacidades administrativas e técnicas. Isso ainda complica a cooperação com doadores internacionais.
Dinheiro ficou pelo caminho
Durante a cúpula One Planet Summit em 2021, foram declarados 14,3 bilhões de dólares para a implementação da Grande Muralha Verde. Dois anos depois, foram desembolsados cerca de 2,5 bilhões.
Em 2025, pesquisadores de universidades na Holanda, Senegal e França publicaram uma análise dos avanços do projeto no Senegal na revista científica “Land Use Policy”. Segundo eles, as árvores crescem mais lentamente do que o previsto, e apenas uma das 36 áreas analisadas estava mais verde do que seria naturalmente. Os autores ressaltam que grande parte dos fundos declarados nunca chegou às comunidades locais.
“Enquanto bilhões de dólares foram declarados para a construção da Grande Muralha Verde africana, valores muito menores foram realmente desembolsados localmente. Como resultado, criou-se uma enorme lacuna entre os fundos declarados e os recursos efetivamente gastos no projeto a nível local” – afirma o relatório.
Concluem tanto ativistas quanto pesquisadores que experiências similares indicam que, apesar das declarações e compromissos da ONU, do Banco Mundial ou da União Europeia, os recursos reais destinados à implementação do projeto permanecem insuficientes.
“Apesar das declarações e compromissos da ONU, do Banco Mundial e da União Europeia, os recursos efetivamente destinados à realização do projeto continuam insuficientes” – afirma Monika Różalska. Ela acrescenta que o grande número de doadores e organizações dificulta a coordenação das ações, o monitoramento do progresso e o controle dos gastos.
Especialistas externos e coautores das mudanças
À sombra de declarações espetaculares e oportunidades perdidas, surgem, no entanto, iniciativas locais ao redor da Grande Muralha Verde.
Para Kemo Fatty, fundador da organização Green Up Gambia, a Grande Muralha Verde nunca foi principalmente um projeto de plantio de árvores. Ele cresceu em uma família de agricultores no norte da Gâmbia, onde a salinidade do solo e a falta de água fizeram com que a terra deixasse de sustentar os moradores. Por isso, seu irmão foi para a Europa. Entre 2015 e 2017, uma série de secas na região do Sahel coincidiu com os governos do ditador Yahya Jammeh, contribuindo para o êxodo de milhares de gambianos. “Eles até afirmavam que não eram migrantes, mas refugiados climáticos” – contou Kemo em entrevista publicada no site do G20 Global Land Initiative.
A Green Up Gambia adotou uma abordagem diferente dos doadores europeus e das instituições que tentam resolver os problemas do Sahel de fora. Em vez de começar pelo plantio de árvores, a organização inicia conversando com os moradores. Em assembleias cidadãs, líderes das aldeias, anciãos, agricultores, mulheres e jovens se reúnem ao redor de uma mesa. São eles que identificam os problemas de sua comunidade e decidem quais ações são mais necessárias.
Como explicou Fatty, preocupa o fato de muitos projetos de proteção ambiental serem implementados de cima para baixo. Especialistas chegam com soluções prontas, e os moradores permanecem apenas como executores de decisões alheias.
“Não queremos tratar os moradores com condescendência. Muitos projetos parecem que os especialistas vêm de fora e tomam todas as decisões. Os agricultores seguem ordens, mas nunca se tornam coautores das mudanças” – afirmou.
A organização defende a criação de fundos comunitários geridos pelos próprios moradores e a transferência de responsabilidade aos líderes locais pela implementação dos projetos.
Essa abordagem nasce das experiências da própria Gâmbia. Para muitos jovens, a migração virou a única forma de sobreviver. Como lembra Fatty, a agricultura começou a parecer uma “jogo de azar”, em que o sucesso depende exclusivamente da sorte. Por isso, a Green Up Gambia combina ações ambientais com a melhoria das condições de vida dos moradores.
O lema da organização é: “move from planting to growing”, ou seja, em tradução livre: não basta plantar uma árvore – é preciso garantir que ela cresça. Além de viveiros de árvores, são desenvolvidos hortas comunitárias, a recuperação de manguezais, ou seja, florestas que crescem em áreas costeiras alagadas e salinas, e projetos de agroflorestas, que visam fornecer alimentos e fontes adicionais de renda aos moradores.
Uma lógica semelhante pode ser encontrada também em outros países do Sahel. No Níger, Mali, Burkina Faso e Senegal, boas resultados vêm de reservatórios de contenção, sistemas locais de gestão de água e do incentivo à regeneração natural das árvores. Monika Różalska também aponta a Etiópia, onde cerca de 15 milhões de hectares de terras degradadas foram recuperados, e a Nigéria, que reabilitou aproximadamente 5 milhões de hectares.
Como destaca a pesquisadora, hoje, em vez de uma única faixa verde, surge uma rede de iniciativas locais. “Em vez de uma muralha real, temos uma coleção dispersa de intervenções locais que melhoram a situação ambiental onde as condições são favoráveis, mas não resultam em uma transformação uniforme de todo o Sahel” – afirma.
A África não precisa de salvadores
O termo “desertificação”, popularizado em 1949 pelo botânico e florestal francês André Aubréville, tornou-se parte da narrativa que responsabiliza agricultores e pastores locais pela degradação das terras no Sahel. Repetida por algumas organizações internacionais, doadores e cientistas, essa história ignorava o papel das mudanças climáticas, da variabilidade natural das chuvas e da instabilidade política. No entanto, análises de imagens de satélite, conduzidas por NASA, mostram que, desde meados dos anos 80, grande parte do Sahel vem se tornando mais verde. Isso é resultado tanto das mudanças climáticas quanto, em parte, de ações de agricultores em nível local – desde a retenção de água até a agrofloresta.
Talvez o maior problema da Grande Muralha Verde não seja a falta de mudas ou de dinheiro. O mais importante é questionar quem projeta as soluções e quem conta a história da África.
“O poder deve estar nas mãos da população local, que está no local” – afirmou Fatty em entrevista ao Pioneers Post.
Em outra entrevista, ele destacou mais um aspecto dessa dependência: “Com muita frequência, outros contam nossas histórias por nós. Raramente temos a oportunidade de dizer: »É assim que queremos nos contar«. Geralmente, chegam jornalistas e apresentam a realidade sob sua própria perspectiva”.
Talvez aí esteja a maior lição que podemos tirar da Grande Muralha Verde. A reconstrução do Sahel não começa quando aparecem mais bilhões de dólares, mas quando os moradores recuperam o protagonismo e decidem por si próprios o futuro de suas terras.
A postagem Wielki Zielony Mur miał odmienić Sahel. Bez lokalnych społeczności pozostanie pustą obietnicą? apareceu primeiro em Krytyka Polityczna.