Incubadora de terroristas e apartheid sexual. Afeganistão após 5 anos de governo talibã
Krytyka Polityczna
Exatamente cinco anos após o retorno dos talibãs ao poder no Afeganistão, há uma formação em massa de futuros terroristas, e as mulheres estão privadas de direitos básicos. A ex-diplomata afegã Nigara Mirdad Omar fala sobre o preço do "pragmatismo" ocidental, que consiste em fazer alianças com um regime cada vez mais brutal. A publicação "Berçário de terroristas e apartheid de gênero. Afeganistão após 5 anos de governo talibã" foi a primeira a aparecer no Krytyka Polityczna.
Era domingo, meados de agosto de 2021. Nigara Mirdad Omar trabalhava há alguns meses em Varsóvia como vice-chefe da missão diplomática. – De madrugada, liguei para meu irmão. Estava com medo da minha família e dos meus amigos. Ele disse que os talibãs estavam muito perto. Às nove horas, ouvimos que o presidente Ashraf Ghani fugiu do país. Ficou claro que era o fim do Afeganistão como o conhecíamos há mais de vinte anos.
Quando os talibãs tomaram o país pela primeira vez em 1996, Nigara e sua família fugiram de Cabul. Mais de vinte mulheres e crianças se apertaram em dois carros de tamanho médio.
– Procuramos abrigo no Vale do Panshir, de onde era meu pai. Deixamos tudo. Durante toda a viagem, choramos.
Não olhe para cima. Pipas proibidas
A infância de Nigara coincidiu com a guerra civil. Entre 1992 e 1996, foguetes de Gulbuddin Hekmatyar, traficante e produtor de drogas, duas vezes primeiro-ministro do Afeganistão, caíam sobre Cabul. Mesmo assim, as crianças iam à escola, meninos e meninas juntas. Brincavam, soltavam pipas. – Quando você solta pipas, olha para cima. Você vê o céu e o espaço. Os talibãs proibiram isso imediatamente. Você tem que olhar para baixo e só para baixo. Isso é muito simbólico – diz Nigara.
Durante a guerra civil, mais de 50 mil pessoas morreram em Cabul. Nos últimos vinte anos, Nigara perdeu mais de trinta membros de sua família. Em 1984, seu pai, Mirdad Pandzhiri, foi preso por sete anos por contatos com Ahmad Shah Masud. Nos dois últimos anos, ele passou na cela, metro por metro, sem luz. Quando foi libertado, não via nada e não conseguia se mover. Ao mesmo tempo, 26 pessoas da família de Nigara foram presas.
– Quando minha mãe foi interrogada, meu irmão de seis meses foi jogado pela janela na neve. Estava a menos 20 graus lá fora. Tudo para forçar minha mãe a testemunhar. Meu irmão sobreviveu, foi pego pela avó. Minha mãe, presa, achava que ele tinha morrido. Das meia-noite às quatro da manhã, ela teve que ficar em pé em uma perna só. Nós realmente conhecemos o preço da liberdade.
Em agosto de 2021, o Afeganistão não era um país modelo. Após a invasão soviética (1979-1989), a guerra civil (1992-1996) e o terrorismo dos talibãs (1996-2001), ainda havia muito a fazer. Em todos os níveis de poder, a corrupção dominava, e grande parte da sociedade permanecia analfabeta. Mas as mulheres podiam aprender, estudar, abrir negócios e praticar esportes – em breve, isso mudaria.
Quando Nigara Mirdad Omar começou a trabalhar no Ministério das Relações Exteriores, as mulheres representavam um quinto do pessoal. No parlamento, as afegãs ocupavam 27% dos lugares. No governo, havia 4 ministras, e mais de 20 mulheres representavam o país no exterior, liderando uma missão ou como número dois. As mulheres podiam estudar, trabalhar e aprender.
Hoje, uma parteira que formou muitas colegas de profissão ou limpa sapatos masculinos nas ruas de Cabul.
Talibãs contra Frente Nacional de Resistência
– As primeiras semanas após 15 de agosto foram de acompanhamento constante das notícias do país. Todos lembram das cenas do aeroporto – bebês passados por cima do muro, pessoas segurando as asas de aviões. Foi um tempo de medo pelos entes queridos, mas também de esperança de que os talibãs fossem expulsos mais uma vez.
Já em 16 de agosto, Ahmad Masud, filho de Ahmad Shah Masud, herói nacional do Afeganistão, que lutou contra a ocupação soviética e, entre 1996 e 2001, contra os talibãs, junto com o vice-presidente Amrullah Saleh e trinta mil combatentes, atravessaram o Vale do Panshir e anunciaram resistência. Surgiu a Frente Nacional de Resistência (NRF).
– Pessoas de mais, inclusive da minha família, se juntaram. Não só aqueles que queriam libertar nosso país do terror, mas também aqueles que simplesmente tiveram que fugir de suas casas e se esconder em algum lugar. Alguns não viam suas esposas e filhos há mais de quatro anos – conta Nigara.
Trabalhar na polícia, no exército ou em ministérios antes de 2021 era uma sentença. As pessoas destruíam seus certificados de trabalho, diplomas de cursos de idiomas, agradecimentos de organizações de ajuda estrangeiras para as quais trabalhavam antes. Os talibãs orgulhosamente afirmam que derrotaram o exército mais poderoso do mundo e o expulsaram do Afeganistão. Para eles, eram infiéis. E aqueles que trabalhavam para eles eram traidores.
Até hoje, a NRF não recebe apoio externo. Os talibãs na base de Bagram apreenderam equipamentos avaliados em até 8,5 bilhões de dólares, incluindo mais de cem helicópteros e dezenas de milhares de veículos. A NRF não possui isso.
– Nossos combatentes estão agora principalmente nas montanhas, porque os talibãs transformaram o Vale do Panshir em um enorme depósito de armas e centro de treinamento para terroristas de mais de vinte países – explica Nigara.
Além da NRF, atuam também o Frente pela Liberdade do Afeganistão e o Frente Unida do Afeganistão. Todas essas forças colaboram entre si, pois o objetivo é um só – expulsar os terroristas do Afeganistão. No quinto aniversário do retorno dos talibãs ao poder, cada vez mais pessoas sentem que a paciência acabou.
El Dorado com dinheiro dos EUA e tráfico de drogas
Ao falar sobre a situação das mulheres no Afeganistão, Nigara frequentemente usa o termo „apartheid de gênero”, destacando a violência generalizada. Os talibãs podem abordar uma mulher na rua e bater com a coronha de uma arma na cabeça, se acharem que ela está vestida de forma inadequada. Acreditam que isso não é apenas seu direito, mas também seu dever. Devem zelar pela moralidade. O mesmo professor na madrassa, que fala sobre pureza e modéstia, repetidamente estupra meninos e os obriga ao silêncio.
– Triste que não possamos contar com apoio externo, mas assim não dá para viver – suspira Nigara e lembra que o Afeganistão é atualmente o único país do mundo onde metade da população está afastada da vida pública e econômica.
– Os talibãs transformam tudo o que tocam em patologia. Olhe para as madrassas. Antes, eram centros de conhecimento. Estudavam astronomia, álgebra, lógica. Líamos poesia. Agora, são lavagens cerebrais e campos de violência sexual. Duas semanas atrás, uma jovem viúva do Panshir me pediu ajuda. Três filhos e uma gravidez avançada. Ela viu os talibãs matarem seu marido. Dois tiros. Um na garganta, outro no peito. Ainda estava vivo por um tempo. Não deixaram a mulher se aproximar. A ameaçaram de matar ela e as crianças.
O filho mais velho, de doze anos, frequenta a madrassa. Os talibãs obrigam os meninos a usar drogas. A mulher quer fugir para proteger as crianças, mas não tem para onde ir. Ela recebeu ajuda emergencial de uma associação polonesa, a Escola pela Paz, que oferece abrigo para mais quinze viúvas em Cabul. É assim que as coisas estão agora.
As pessoas mendigam e passam fome, mas os talibãs têm dinheiro. Toda semana, dos EUA, chegam 40 milhões de dólares para combater o terrorismo e outros tantos para ajuda humanitária. Comida estrangeira também chega aos campos de treinamento de terroristas. Há também dinheiro do tráfico de drogas.
– Empresas chinesas interessadas em nossas ricas reservas naturais atuam ativamente e pagam. Tudo vai para os talibãs. Afinal, não há um orçamento no seu entendimento ou uma gestão normal de um país. Essas pessoas não têm ideia disso – explica Nigara.
Por sua vez, os talibãs sabem procurar colaboradores úteis. Um caso assim na Bélgica foi recentemente divulgado por Sarah Adams – ex-agente da CIA, hoje analista. Supostamente um empresário, importador de frutas secas e açafrão. Mas, durante uma viagem ao Afeganistão, encontrou-se com alguns representantes proeminentes dos serviços talibãs. Ele também está na lista de pagamento deles. Rico, com uma posição consolidada. Por meio de contatos com políticos, pode influenciar não só a narrativa, mas também ações concretas. Pode incentivar uma abordagem “pragmática”. Afinal, a presença dos talibãs é um fato, não se pode se irritar com a realidade.
Em outros países também há. Comentadores, analistas, organizadores de viagens. Recentemente, um jornalista afegão, durante o festival literário em Londres, afirmou que a situação é “normal” e que as afegãs podem andar na rua. No mesmo dia, em Herat, os talibãs sequestraram várias dezenas de mulheres por supostos delitos de vestuário.
Alguns fazem isso por dinheiro, outros por ignorância. Influenciadoras que promovem viagens ao Afeganistão, publicando fotos com talibãs e suas armas, também alimentam a narrativa terrorista. Quando um empresário afegão de destaque, com acesso a políticos, incentiva, por exemplo, o envio de remédios ao Afeganistão, é preciso ter cautela. No local, ninguém vai cobrar explicações, e a ajuda provavelmente não chegará aos mais necessitados. Assim como a comida do WFP, que acaba em campos de treinamento de terroristas.
– Minha missão em Varsóvia terminou em outubro de 2024. A Polônia, país anfitrião, tomou essa decisão. Desde agosto de 2021, trabalhávamos sem remuneração. Pagávamos contas, muitas vezes do próprio bolso. Eu queria muito manter a missão. Lutei por isso até o fim. O embaixador já morava e trabalhava em Londres – lembra Nigara.
Atualmente, existem apenas 8 postos representando a República Islâmica do Afeganistão: no Tadjiquistão, Bélgica, Áustria, Suíça, Canadá, Austrália, Grécia e França. Na Polônia, embora não haja talibãs, a última vice-chefe da missão, Nigara, teve que deixar o país. À frente de uma das missões – a austríaca – está uma mulher, Manizha Bakhtari. É sobre ela que o filme The Last Ambassador de 2025 fala.
Pragmatismo versus direitos humanos
– É preciso sempre lembrar disso. Especialmente aqueles que chamam para cooperação com os talibãs em nome do pragmatismo. Do Ocidente, que fala tanto sobre direitos humanos e valores, esperamos algo diferente – diz Nigara.
Rússia e China nem precisam fingir que se preocupam com direitos humanos. Em ambos os países, atuam representantes dos talibãs com funções diplomáticas, e ninguém espera de Moscou ou Pequim explicações. Já os países ocidentais, que costumam justificar seus contatos com os talibãs pelo pragmatismo, agem de forma diferente.
Foi assim na Alemanha. Os talibãs assumiram o controle dos consulados em Berlim e Bonn, embora não do escritório em Munique. A justificativa é familiar: essa é a realidade, é preciso dialogar com as autoridades de Cabul para controlar a migração, devolver pessoas sem direito de residência, resolver questões consulares. Da mesma forma, explicaram o convite aos representantes talibãs em Bruxelas – as conversas deveriam tratar principalmente de migração.
Países da região também se apoiam no pragmatismo. Cazaquistão, Quirguistão, Uzbequistão e Turcomenistão transferiram as missões afegãs para os representantes do novo governo em Cabul. Aqui, além de questões migratórias, entram comércio, investimentos e interesses econômicos. Com cada passo, os talibãs ganham algo mais do que a emissão de passaportes ou negociações comerciais. Ganham elementos de normalidade: escritório, placa, lugar à mesa e a possibilidade de atuar como representantes de um país que tomaram à força.
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