„Osama estaria satisfeito”. O Afeganistão novamente é o centro do jihadismo global.

Krytyka Polityczna
„Osama estaria satisfeito”. O Afeganistão novamente é o centro do jihadismo global.

Vinte e cinco anos após o ataque ao WTC, há mais terroristas do que nunca no Afeganistão. Os talibãs e a Al-Qaeda estão recrutando e treinando em grande escala. A postagem "Osama ficaria satisfeito". O Afeganistão está novamente no centro do jihad global apareceu primeiro em Krytyka Polityczna.

„Estou aqui pelos melhores, mais inteligentes jihadistas” – disse certa noite Khalid Sheikh Muhammad a um grupo de combatentes muçulmanos na Bósnia. „Este lugar é secundário. Claro, temos nossos irmãos muçulmanos aqui e vocês os apoiam. O verdadeiro inimigo é a América. Na [província] Khost, no Afeganistão, já há o campo Khalden e lá está surgindo uma nova força. Mudem-se para lá. Vocês ficarão vagando por aí nas margens do mundo, perdendo tempo e vida. E mesmo assim virão governos seculares. Permitirão álcool, vida noturna. Nenhum prostíbulo será fechado. Vão para o Afeganistão. Preparem-se para essa guerra mais importante” – incentivava. Era 1995.

Já naquela época Khalid Sheikh Muhammad pensava em usar aviões civis para realizar ataques nos Estados Unidos. Anteriormente, no início de 1995, seu sobrinho Ramzi Jusuf, junto com cúmplices, preparava a Operação Bojinka – um plano que previa explodir onze aviões americanos voando da Ásia para os EUA, incluindo um atentado ao Papa. Não foi realizado, pois a polícia filipina descobriu um apartamento onde eram guardados materiais necessários para a operação.

Em 1996, Khalid Sheikh Muhammad apresentou a Osama bin Laden uma versão modificada dessa ideia. Bin Laden inicialmente a rejeitou. No final de 1998 ou no começo de 1999, mudou de ideia e deu a KSM a autorização para preparar a operação. Isso aconteceu alguns meses após o ataque de mísseis americanos contra os campos da Al-Qaeda no Afeganistão. Em dezembro de 1999, começaram os preparativos para uma operação que, dois anos depois, mudaria o rosto do mundo.

Da guerra na Bósnia à Al-Qaeda e ao 11 de setembro

Alguns combatentes da Bósnia já haviam lutado anteriormente na Chechênia ou no Afeganistão. Alguns tinham apenas dezesseis anos e precisaram escapar silenciosamente de casa. Como Aimen Dean, futuro agente do MI6 e autor do livro Nine Lives: My Time as MI6’s Top Spy Inside al-Qaeda. Em 1994, ele saiu da Arábia Saudita para a Bósnia, onde se juntou a combatentes islâmicos. Depois foi para o Afeganistão, e em 1997 fez o juramento de lealdade a Osama bin Laden. Na época, adotou o nome de Haidarim al-Bahraini, o Leão de Bahrein – até hoje sente vergonha disso. Aimen Dean também é pseudônimo.

Entre os combatentes islâmicos de 40 países havia também dois sauditas, Khalid al-Mihdhar e Nawaf al-Hazmi. Eram amigos desde a infância. Selecionados no Afeganistão por Osama bin Laden como os primeiros de 19 futuros terroristas, chegaram aos Estados Unidos em janeiro de 2000.

Do aeroporto de Los Angeles foram para San Diego. Omar al-Bayoumi, um saudita que se passava por estudante, ajudou-os. Foi ele quem encontrou uma moradia, assinou o contrato de aluguel e ajudou nas primeiras semanas de estadia. Depois afirmou que os encontrou por acaso em um restaurante em Culver City. A Comissão 9/11 concluiu que não há provas confiáveis de que ele soubesse dos planos ou ajudasse conscientemente a organização terrorista. Investigações posteriores do FBI e documentos revelados lançaram nova luz sobre essa história.

Bayoumi era oficialmente estudante, mas não frequentava aulas. Sustentava-se com dinheiro de empresas ligadas ao governo saudita, incluindo o Ministério da Defesa. O FBI descobriu que ele recebia cerca de 90 mil dólares por ano, mesmo sem realizar trabalho algum. Após a chegada de al-Mihdhar e al-Hazmi, seu salário mais que dobrou, e depois voltou ao nível anterior quando ambos deixaram San Diego.

Esse não é o único detalhe que chama atenção. Materiais revelados pela BBC mostram Bayoumi nos braços de Anwar al-Awlaki, que alguns anos depois se tornou um dos líderes da Al-Qaeda na Península Arábica. Em uma gravação publicada, ambos participam de uma partida de paintball em San Diego junto com um funcionário saudita do Ministério dos Assuntos Islâmicos. O FBI tinha esses materiais logo após os atentados, mas não os utilizou plenamente na investigação posterior.

Khalid e Nawaf raramente saíam de casa. Dormiam, jogavam, e à noite chegava uma limusine que os levava para treinamentos. Assim era o plano – entre os sequestradores, estariam os chamados músculos, que neutralizariam quem fosse necessário, para que outros, devidamente treinados, pudessem assumir o controle dos aviões.

Khalid Sheikh Muhammad e as prisões secretas da CIA

O cérebro de toda a operação, Khalid Sheikh Muhammad, foi preso pelos americanos em março de 2003. Hoje, ainda está em Guantánamo. Após a captura, foi levado para prisões secretas da CIA. Uma delas ficava na Polônia, em Stare Kiejkuty.

Em dezembro de 2014, Aleksander Kwaśniewski admitiu publicamente que a Polônia concordou em criar um centro secreto da CIA em seu território. Falou de um “local relativamente seguro”, evitando usar a palavra “prisão”. Khalid Sheikh Muhammad também foi levado a Stare Kiejkuty. Segundo documentos revelados pela CIA, ele foi submetido lá a técnicas de interrogatório reforçadas, incluindo pelo menos 183 sessões de waterboarding, uma simulação de afogamento. Foi mantido em posição de pé, privado de sono, despido. Também foram utilizados chamados encharcamentos anais.

Em janeiro de 2007, Frank Pellegrino, agente do FBI que por anos buscava por Sheikh Muhammad, sentou-se com ele à mesma mesa. Desta vez, não houve gritos, algemas ou tortura de respostas. Conversaram por vários dias. Pellegrino resumiu assim: “Acreditem ou não, ele tem um senso de humor incrível. Uma conversa muito envolvente. E zero remorso, zero arrependimentos”.

Imediatamente após o 11 de setembro, perguntei ao professor Janusz Danecki, arabista, se esses dezenove jovens – entre 20 e 33 anos – realmente estavam tão ansiosos pelo paraíso e como conciliar sua decisão com a proibição corânica do suicídio.

„O paraíso muçulmano é o sonho de um beduíno do século VII. É verde. Há água. Rios que correm com vinho. Há huris. Hoje, tudo isso pode ser comprado com dinheiro já neste mundo. Essas pessoas foram manipuladas de forma muito habilidosa e eficaz. Ninguém lhes falou de suicídio, mas de martírio em defesa do islamismo. Pouco antes do ataque, eles deveriam rezar incessantemente, jejuar, raspar o corpo inteiro e se preparar para um ritual sagrado de purificação, que em um instante os levaria ao paraíso” – explicou o professor Danecki.

No entanto, há uma coisa que o dinheiro não pode comprar. Segundo uma tradição posterior sobre a recompensa ao mártir, ele pode pedir um lugar no paraíso para seus setenta familiares mais próximos.

Não há uma única igreja, como no cristianismo. Também não há um único autoridade islâmica que possa decidir qual é a interpretação correta da religião. Existem estudiosos, escolas jurídicas, clérigos. Também há grupos terroristas que criam suas próprias interpretações e tentam implementá-las à força. Às vezes com enorme crueldade.

Assim faz o Boko Haram. Não só na Nigéria, de onde se originou, mas também na Níger, Mali e Chade. Assim fazem os talibãs no Afeganistão. E assim fazia a Al-Qaeda, que utilizava textos e conceitos religiosos para justificar a violência.

Nos campos de treinamento da Al-Qaeda no Afeganistão, ensinavam não apenas tiro ou construção de bombas. Aimen Dean, que passou por esse treinamento, descreveu o aprendizado de preparação de venenos, armas químicas e biológicas. Também experimentavam com animais. Segundo Dean, matar coelhos dava uma satisfação autêntica a alguns participantes.

Ahmad Shah Masud alertava sobre a Al-Qaeda e os talibãs

Os talibãs tomaram Cabul em 1996. A Al-Qaeda estabelecia seus campos de treinamento do lado afegano e paquistanês da fronteira. A cooperação entre os talibãs e a organização de Osama bin Laden se intensificava.

Dois dias antes do ataque às Torres Gêmeas, Ahmad Shah Masud, “Leão do Panshir” – líder da Aliança do Norte e principal opositor dos talibãs no país – foi assassinado. Ele controlava o Panshir, uma das últimas regiões do Afeganistão fora do controle deles. Alguns meses antes, em abril de 2001, Masud discursou no Parlamento Europeu. Alertou sobre os talibãs e a Al-Qaeda, falou do perigo que o terrorismo do Afeganistão representava para o mundo. Houve aplausos, expressões de solidariedade e apoio político.

Após o atentado, Masud foi mencionado no Parlamento Europeu como alguém cujos alertas o Ocidente não levou a sério o suficiente. Nicole Fontaine, então presidente do PE, afirmou que sua morte – ocorrida em 9 de setembro de 2001 – fazia parte da mesma estratégia dos ataques em Nova York e Washington.

Hoje, seu filho, Ahmad Masud, fundador e líder do Fronte Nacional de Resistência do Afeganistão, também tenta chamar a atenção do mundo para o que acontece em seu país. E, com tristeza, reconhece que o Afeganistão virou “uma notícia de ontem”.

Em 2026, contra os talibãs, se insurgiram 180 estudiosos islâmicos afegãos. Em uma fatwa, consideraram o governo deles uma tirania, convocaram os afegãos à luta armada e afirmaram que derrubar os talibãs é um dever religioso. Mas esses estudiosos não têm armas. Os talibãs, sim.