O mundo não parou
Kapitál
Ele era apenas um cachorro é uma reportagem sensível sobre tristeza, amor, cuidado e o relacionamento com seres que compartilharam a vida conosco. O livro está sendo lançado na tradução de Samuel Marca e na diagramação de Barbara Kowalczuková. Você pode apoiar a criação do livro aqui .
Foi apenas um cachorro é uma reportagem sensível sobre tristeza, amor, cuidado e o relacionamento com seres que compartilharam a vida conosco. O livro está sendo lançado na tradução de Samuel Marca e na diagramação de Barbara Kowalczuková. A criação do livro você pode apoiar aqui.
A irmã ajudava em um abrigo em Varsóvia, Na Paluchu, e pediu-me se eu poderia cuidar de uma cadela selvagem de aproximadamente um ano. Tymid quase não saía da gaiola. Nos abrigos, na época, as condições eram muito piores do que hoje. A cadela estava no canto, enterrada na palha. Não queria sair para passear. Os funcionários me emprestaram uma caixa de transporte, na qual ela se sentia segura.
No meu apartamento, ela escolheu um lugar atrás da máquina de lavar, então afastei o aparelho da parede para o centro do banheiro. Coloquei lá travesseiros, brinquedos de cachorro. Quase meio ano, esse foi o esconderijo de Tymid.
Provavelmente, ela foi espancada. Ao ver a coleira, ela se molhou de medo. Nosso primeiro passeio aconteceu quase um mês depois, quando começaram a fazer efeito os medicamentos calmantes, e foi às três ou quatro da manhã, para não encontrarmos ninguém. E mesmo assim, ela se assustou com uma folha caindo. O passeio durou apenas um momento. Nosso primeiro passeio fora da cidade aconteceu após alguns anos. A viagem para Mazury foi um grande desafio. Três horas de Varsóvia, mas levamos o dobro do tempo. Tive que esfregar o carro de vômito dela. Foi nesse momento que, de repente, vi um cachorro completamente diferente: com a cauda abanando, curioso, com vontade de brincar.
Mostrou-se que Tymid é uma cadela viajante. Percorremos o caminho do Camino de Santiago – mais de seiscentos e vinte quilômetros, levou um mês. Fomos às Bieszczady, aos Cárpatos, exploramos os Tatras eslovacos, cruzamos a principal estrada de Sudetes. Visitamos a Espanha, França, Macedônia do Norte, Montenegro, Alemanha, Albânia. Para Tirol e Veneza, fomos de trem. Ela adorava trens.
Tymid tinha comigo onze anos quando percebi que ela de alguma forma frequentemente colocava a pata no olho. O veterinário – oftalmologista, diagnosticou inflamação e prescreveu antibióticos. Após quatro semanas, melhorou, mas a pata de Tymid voltou a tocar o olho. Novos exames revelaram uma pequena formação, que foi removida a laser. Era um tumor, maligno, mas removido com uma grande margem de segurança. Passaram-se três meses e a pata voltou a tocar o olho. Desta vez, algo apareceu na terceira pálpebra. Nova cirurgia. A análise histopatológica da pálpebra removida confirmou o tumor, mas as perspectivas eram boas.
Três meses depois, fomos para a Croácia, de onde planejava continuar para a Sérvia e além. Quando Tymid começou a esfregar o olho com a pata novamente, voltamos à Polônia para uma avaliação. Outro tumor. O médico recomendou uma cirurgia mais complexa, que envolveu a remoção do globo ocular junto com parte dos tecidos moles e ossos ao redor.
Tymid se recuperou exemplarmente. Após a remoção dos pontos e consulta com um oncologista, que me tranquilizou de que não havia contraindicações, seguimos para a Croácia e depois para a Itália, onde fica uma das melhores clínicas oncológicas para animais na Europa. Os exames de controle mostraram resultados muito bons, então continuamos a viagem e fomos para Montenegro. Lá, percebi que Tymid estava levemente deformando o crânio. Segundo o veterinário local, poderia ser uma consequência da cirurgia; ela perdeu o olho, músculos e partes do osso. Mas, após algum tempo, já na Macedônia, senti uma espessura no pescoço dela. Procurei um oncologista…
E esse foi o fim da nossa viagem.
Já na Polônia, os médicos dela coletaram amostras dos nódulos no pescoço e daquela pequena alteração na cabeça. O resultado – um tumor muito agressivo. Perguntei ao oncologista o que fazer agora. Ele respondeu que só restava a terapia paliativa.
Por vários meses, lutamos pelo conforto de Tymid. O médico até nos recomendou medicamentos especiais de um canto do mundo oposto, que poderiam aliviar a dor dela e permitir que ela aproveitasse a vida pelo maior tempo possível.
Ela ainda viveu alguns meses sem sofrimento.
Após sua partida, muitas vezes eu ficava deitada no chão, encolhida em um nó, sem entender como tinha chegado ali. Via o mundo como se fosse através de um vidro. Ficava irritada que o mundo não parasse quando Tymid morreu.
Tudo me levava à loucura. Quando esperava o semáforo ficar verde na faixa de pedestres e alguém ao meu lado telefonava, tinha vontade de empurrá-lo com o ombro para que se calasse. Cada som me irritava. Queria empurrar a mulher que estava na fila na loja, porque ela se movia muito lentamente.
No aniversário da morte de Tymid, comprei uma passagem para o outro lado do mundo, para estar o mais longe possível daqui.
Mas do luto não se escapa.