Desde o tomada da CIA até o ícone do feminismo. Despedida crítica de Gloria Steinem

Krytyka Polityczna
Desde o tomada da CIA até o ícone do feminismo. Despedida crítica de Gloria Steinem

Gloria Steinem não foi uma feminista cega às questões de classe. No entanto, permanece a questão: por que ela se tornou a face do movimento, enquanto feministas antiimperialistas e socialistas permaneceram, na melhor das hipóteses, figuras secundárias? A postagem De um espião da CIA a um ícone do feminismo. Despedida crítica de Gloria Steinem apareceu primeiro no Krytyka Polityczna.

Aos 92 anos, em Nova York, faleceu a mais famosa feminista americana do século XX. Além das homenagens que lhe foram prestadas à esquerda, surgem vozes de oposição a essa beatificação. Nessa segunda visão, Gloria Steinem era sobretudo uma “girl boss do imperialismo ocidental”, e sua colaboração de vários anos com a CIA, com o objetivo de captar a juventude europeia para o “liberalismo e a sistema democrático americanos”, a compromete completamente como ícone do feminismo.

Jornalista, intelectual, cofundadora do National Women’s Political Caucus – organização americana criada na década de 70, cujo objetivo era aumentar a participação das mulheres na política – e também da revista “Ms.”, a primeira revista feminista publicada em todo os Estados Unidos. Ativista pelo direito ao aborto, rosto da luta contra a violência doméstica e sexual, bem como contra todas as outras formas de discriminação sexista. Em 1969, quando, como repórter da “New York Magazine”, participou de um evento em que mulheres compartilhavam suas experiências de aborto, ela percebeu que não estava sozinha – a forma sem culpa ou vergonha, com que pouco tempo depois falou sobre o aborto ao qual se submeteu aos 22 anos, foi uma contribuição inestimável na luta contra o estigma do aborto.

Décadas antes do #MeToo, em 1963, Steinem trabalhou como “bunny” no Playboy Club e escreveu sobre as condições humilhantes às mulheres lá existentes – o artigo intitulado Bunny’s Tale foi um marco em sua carreira jornalística, especialmente em termos de reconhecimento. Após a publicação, Hugh Hefner ordenou que as candidatas a “bunny” não precisassem mais fazer exames de sangue ou ginecológicos obrigatórios.

Como a maioria das publicações póstumas se concentra nos méritos de Gloria Steinem, permito-me passar a uma piada de mau gosto para seus seguidores mais fervorosos.

Gloria Steinem e a CIA. Ela não tinha vergonha dessa colaboração

Não há provas de que Gloria Steinem fosse uma agente no sentido literal, embora os desconfiados corretamente notem que isso se aplica à maioria dos agentes contratados pela CIA. Sabe-se, no entanto, que ela atuou por pelo menos quatro anos como “asset” – recurso não oficial – da inteligência americana. No final dos anos 50 e início dos 60, ela liderou a organização financiada pela CIA, Independent Research Service, colaborando com a agência em uma operação de propaganda da Guerra Fria dirigida contra a influência da União Soviética no movimento juvenil internacional. “Liberal, não violenta, honrada” – assim ela descrevia a CIA, quando o assunto veio a público pela primeira vez.

Depois, ela admitiu que aceitar financiamento secreto foi um erro. Justificou-se com uma “crença ingênua de que a fonte final do dinheiro não importava”, pois – como ela argumentava – não havia ordens ou tentativas de controle relacionadas a isso. A verdade é que, na prática, não era necessário. Em 1967, Steinem revelou que ficou feliz ao encontrar “liberais de visão de futuro” no governo. Na época, ela representava o movimento anti-comunista, acreditando que o império americano poderia ser distinguido de seus elementos mais brutais e utilizado como ferramenta para alcançar “bons” objetivos fora dos EUA.

De Índia direto para a Guerra Fria

Após concluir o Smith College em 1956, Steinem viajou para a Índia, onde passou dois anos. Lá, ela entrou em contato com a política do país pós-colonial e com a intensa rivalidade ideológica entre os Estados Unidos e a União Soviética por influência na Ásia, África e outras regiões do mundo que estavam saindo do domínio europeu colonial.

Ao retornar aos EUA em 1958, ela se interessou pelos Festivais Mundiais da Juventude e Estudantes. Eram grandes eventos internacionais organizados pela World Federation of Democratic Youth e pela International Union of Students – estruturas que, na Guerra Fria, estavam sob influência do bloco soviético. Os festivais atraíam dezenas de milhares de jovens de todo o mundo, incluindo países recentemente independentes do Sul global. Para Moscou, eram parte da política de soft power; para Washington, um campo que não podia ser entregue ao inimigo. Os historiadores Joni Krekola e Simo Mikkonen descrevem esses eventos como verdadeiras arenas culturais da Guerra Fria, onde tanto a CIA quanto os serviços soviéticos tentaram influenciar os participantes por meio de organizações formalmente independentes do Estado.

Em 1959, o festival aconteceu pela primeira vez fora de um país comunista, em Viena, país neutro. Para os estrategistas americanos, foi um momento especialmente oportuno para entrar na jogada.

Foi então que surgiu Steinem.

Propaganda sofisticada ao invés de capa de espionagem

Em Viena, a Independent Research Service publicava materiais criticando o controle comunista sobre o festival, apoiava iniciativas culturais alternativas e fazia o possível para dividir os participantes dos EUA. Como escreve Hugh Wilford, com base em pesquisas históricas, Steinem também tentou controlar a composição do grupo de americanos, para que não dominassem pessoas com simpatias comunistas.

Ao mesmo tempo, toda a operação contava com uma infraestrutura de guerra de informação dos EUA: Rádio Free Europe, redes de publicação e diversas organizações ligadas à CIA. Distribuía, por exemplo, livros proibidos na URSS e materiais críticos à ideologia comunista e ao sistema soviético.

Isso não significa que toda pessoa que distribuía livros fosse funcionária da CIA. Essa era a sutileza de toda a operação – a maioria dos participantes nem precisava saber de onde vinha o dinheiro.

Steinem sabia disso.

Três anos depois, o projeto foi repetido na Finlândia, durante o festival de Helsinque. Segundo as pesquisas de Krekola e Mikkonen, o IRS treinou cerca de 160 ativistas antes da viagem, em seis seminários, preparando-os para resistir a qualquer crítica aos EUA. A organização produziu milhares de panfletos e outros materiais. O procurador-geral Robert Kennedy pediu pessoalmente informações sobre os preparativos e, após o festival, convidou a direção do IRS e pessoas envolvidas na CIA para parabenizar a operação.

Não se tratava de uma iniciativa estudantil marginal, cujos custos fossem pagos pela CIA por boa vontade, mas de um elemento importante na política do Estado.

Especialmente reveladora era a atividade de informação. Em Helsinque, circulava o jornal “Helsinki Youth News”, disponível em três idiomas. Formalmente, tinha um editor finlandês, mas, segundo arquivos históricos, seu conteúdo era na prática preparado e controlado pelo pessoal americano do IRS. O editor-chefe Ted Whittemore trabalhava para a CIA, embora nem todos seus colegas soubessem disso.

O centro de informação do IRS, dirigido por Steinem, também tentava influenciar quais informações sobre o festival chegavam à mídia ocidental. NBC, CBS e ABC recebiam materiais atraentes mostrando comportamentos repressivos dos organizadores. Um dos sucessos propagandísticos de Steinem foi a disseminação de fotos de bandeiras sendo retiradas, expressando oposição às provas nucleares tanto do Oriente quanto do Ocidente.

“Liberal e visionária, aberta ao diálogo”

O aspecto mais prejudicial à imagem futura de Steinem talvez não sejam os eventos de 1959-1962, mas sua reação ao revelar seu papel na Guerra Fria alguns anos depois.

Em 1967, a revista “Ramparts” publicou uma extensa denúncia sobre uma rede de organizações sociais americanas secretamente financiadas pela CIA, principalmente a National Student Association. Em meio ao escândalo, também a atividade do Independent Research Service passou a ser alvo de atenção pública e da imprensa.

Em entrevista ao “New York Times” de 21 de fevereiro de 1967, Steinem afirmou que, ao descobrir a possibilidade de receber dinheiro da CIA, ficou “longe de ficar chocada e feliz por ter encontrado liberais no governo”. Acrescentou que eram pessoas que compreendiam a necessidade de enviar americanos diversos para o festival.

Na entrevista ao “Washington Post”, ela falou sobre os agentes da CIA com quem trabalhou: “Os considerei liberais e visionários, abertos ao diálogo”. Garantiu que “nunca sentiu que alguém lhe mandava algo”. Não era necessário – Steinem afirma que a CIA, assim como ela, queria simplesmente “mostrar ao mundo uma imagem saudável e diversa dos Estados Unidos”.

bell hooks – Teoria feminista

Em seu polêmico texto Feminists and the Clinton Question, ela argumentou que, mesmo que as relações de Paula Jones e Kathleen Willey fossem verdadeiras, o comportamento de Clinton não foi assédio no sentido que se atribui repetidamente a Clarence Thomas ou a Bob Packwood. Ela destacou que Clinton “aceitou a recusa”. Em 2017, já na era #MeToo, afirmou que hoje “não escreveria o mesmo”, ao mesmo tempo em que declarou que se alegra por ter publicado esse texto em 1998, argumentando que, na época, temia que a definição de assédio se estendesse a relações sexuais consensuais.

A declaração mais infeliz, do ponto de vista da esquerda, foi a de 5 de fevereiro de 2016. No programa de Bill Maher, ela tentou explicar por que Hillary Clinton tem pouco apoio entre as jovens eleitoras. Primeiro, argumentou que, com a idade, as mulheres se tornam mais radicais, enquanto os homens tendem ao conservadorismo. Depois, disse: “Quando você é jovem, pensa: onde estão os meninos? Os meninos estão com Bernie”. Na conversa, soou como se Steinem estivesse sugerindo que as jovens apoiam o socialista Bernie Sanders não por convicções políticas próprias, mas porque querem estar onde estão os jovens homens. Diante das críticas, ela suavizou a mensagem, afirmando: “Independentemente de apoiarem Bernie ou Hillary, mais jovens do que nunca estão ativas e feministas”.

O apoio aos democratas não excluía boas relações de Steinem com alguns republicanos. Ainda hoje, ela causa controvérsia por sua relação com Henry Kissinger – uma figura responsável por inúmeras atrocidades de guerra e pelo apoio a ditaduras na política externa dos EUA, de Chile a Timor-Leste. Steinem admirava sua inteligência, chamando-o, entre outras coisas, de “o homem mais interessante do gabinete Nixon”. Apesar disso, ela e Kissinger estavam em lados opostos na questão da Guerra do Vietnã: ela a criticava, enquanto ele foi um dos principais arquitetos que pessoalmente sabotaram as negociações de paz.

Steinem nega veementemente os rumores de que teria tido um romance com Kissinger. Sabe-se, no entanto, que ela foi parceira de dois homens em períodos diferentes ligados a Jeffrey Epstein.

J. Stanley Pottinger, advogado e ex-alto funcionário do Departamento de Justiça, com quem ela manteve uma relação de cerca de nove anos, no início dos anos 80 trabalhou comercialmente com Epstein – na época, quando ele era parceiro de Steinem – mas, décadas depois, representou mulheres que o acusaram de abuso sexual.

Por sua vez, o bilionário e magnata da mídia Mort Zuckerman, com quem Steinem se encontrou no final dos anos 80 e início dos 90, entrou em uma relação social e comercial muito mais próxima com o mais famoso pedófilo do século XXI, já após o fim do relacionamento com Gloria: trabalhou com ele em projetos de mídia e, após a condenação de Epstein, também utilizou seus serviços financeiros. No entanto, não há provas confiáveis de que Steinem conhecesse Epstein, tivesse encontros com ele ou fizesse parte de seu círculo social.

Por que justamente Steinem?

Ao refletir sobre o legado da “mais famosa feminista do mundo”, vale questionar o que está por trás dessa expressão pomposa. Por que Gloria Steinem, e não Dolores Huerta, bell hooks, Angela Davis ou alguma das centenas de ativistas que atuam em sindicatos, movimentos de moradia, direitos sociais e comunidades de mulheres negras ou indígenas?

Steinem não foi a mais importante – foi a mais visível. E a visibilidade também se distribui de acordo com classe, raça, acesso aos meios de comunicação e o quanto uma pessoa é aceitável para as instituições dominantes. Gloria não só era palatável – ela era extremamente útil.

Não é verdade – como afirmam alguns críticos de esquerda – que “nunca falou sobre raça e classe”. Ao longo dos anos, ela participou de eventos ao lado de feministas negras e de esquerda, como Dorothy Pitman Hughes e bell hooks. Esta última – marxista, ícone do feminismo socialista – até sua morte, em 2021, falou de Steinem apenas em termos elogiosos. No texto Gathering as Feminists: The Power of Sharing and Solidarity de 2015, ela a descreveu como uma amiga de longa data e ativista feminista dedicada. Hooks afirmou que essa amizade lhe ensinou que diferenças na teoria e na política feminista não precisam destruir a solidariedade. Steinem também foi amiga de Wilma Mankiller, a primeira mulher eleita líder do Povo Cherokee.

Gloria Steinem não foi uma feminista racista ou cega às questões de classe. Essa tese é fácil de refutar. A questão é: por que ela se tornou a face universal do movimento, enquanto feministas antiimperialistas e socialistas permaneceram, na melhor das hipóteses, figuras secundárias?

Não se deve negar a Gloria Steinem o status de feminista. Uma análise honesta de sua trajetória ajuda a compreender as limitações de uma tradição feminista específica – neste caso, branca e liberal, favorável ao imperialismo americano – ao invés de atribuir tudo à hipocrisia pessoal de uma mulher.

Steinem ajudou mulheres a conquistarem poder nas instituições existentes. Correntes feministas mais radicais desejavam desmontar essas instituições para criar outras, não enraizadas no sistema patriarcal e capitalista.

Steinem defendia que as mulheres estivessem à mesa. Feministas socialistas, ativistas negras, anti-coloniais e sindicalistas questionaram quem ocupa a mesa, quem serve a comida e por quais salários, além de quem teve a terra confiscada onde está o prédio.

A postagem De Wtyczki da CIA a ícone do feminismo. Despedida crítica de Gloria Steinem apareceu primeiro em Krytyka Polityczna.