Os derrames sistemáticos das gigantes petrolíferas estão a envenenar a costa de Angola e as suas comunidades
Voxeurop
Enquanto as gigantes petrolíferas europeias prometem uma «mentalidade de zero derrames» nos seus países de origem, as suas operações offshore ao longo da costa angolana parecem contar uma história diferente. Os derrames crónicos de petróleo no oceano deixam as comunidades sem peixe nem alimentos frescos, as praias ficam cobertas de crude e a exposição a substâncias tóxicas aumenta as doenças entre as comunidades locais. Uma investigação que durou um ano revela a crise humana e ambiental oculta de Angola.
Foram precisas cinquenta pessoas para puxar a rede para fora do mar. Não por causa do que tinha sido apanhado — não havia nada. Mas por causa do peso do petróleo. Petróleo bruto espesso e castanho-escuro que tinha impregnado a malha até ser necessário o esforço conjunto de quase toda a comunidade — homens, mulheres e crianças — perto de Soyo, na costa norte de Angola, para a puxar para a praia.
«Assim vamos viver como... Olha o que estão a nos fazer!», ouve-se uma jovem gritar num vídeo em que a rede é puxada para fora. Encontramos Manuel e Raoul*, dois pescadores, na mesma praia onde as imagens foram filmadas. Manchas de petróleo ainda sujam a areia, ao lado de plantas amareladas e cobertas de crude. Caranguejos mortos cobriam a areia. «Sempre que há malemba [mar agitado], o petróleo chega à praia», disse Raul, um dos cinquenta. Tem sido assim há anos — e, para os pescadores que trabalharam nestas águas uma vida inteira, a situação só está a piorar.
Há 13 anos que petroleiros europeus, britânicos e norte-americanos se abastecem de petróleo bruto angolano e deixam para trás um rasto que os residentes descrevem como destruição sistemática e regular. Uma pequena área do leito marinho angolano — Kizomba A no Bloco 15, operada pela ExxonMobil e detida em conjunto pela BP (Reino Unido), ENI (Itália), Equinor (Noruega) e Sonangol (Angola) — derramou, cumulativamente, petróleo numa área com, pelo menos, o tamanho de Montenegro, de acordo com a nossa análise de imagens de satélite.
O petróleo obstrui as redes de pesca. Escurece a mandioca, as laranjas e as bananas, e seca os coqueiros; envenena os peixes de que as comunidades nas províncias do norte do Zaire e de Cabinda dependem para sobreviver e, ainda assim, por vezes comem-no, porque a alternativa é passar fome. Muitos passam dias sem comer, enquanto outros sentem que não têm outra opção senão comer os alimentos tóxicos, expondo-se a potenciais agentes cancerígenos e a perturbações gastrointestinais. O sulfureto de hidrogénio tóxico libertado pela atividade de extração de petróleo, que se infiltra nas plantações de banana, também constitui um perigo para a respiração. O seu odor sulfuroso, a ovo podre, provoca náuseas e vómitos.
Um porta-voz da ExxonMobil declarou: «As nossas inspeções não encontraram qualquer evidência de anomalias operacionais, falhas de equipamento ou perda de contenção nas instalações do Bloco 15 que expliquem a mancha observada ou os alegados impactos.»
Apesar das queixas de várias comunidades costeiras no Zaire e em Cabinda, os derrames continuam.

A dimensão do problema
As imagens de satélite não mostram qualquer vestígio de fugas de petróleo antes da instalação da plataforma Kizomba A, em 2002. Os primeiros sinais de petróleo na superfície do mar parecem ter surgido em 2003, quando a extração teve início. Os avistamentos esporádicos continuaram até 2007, altura em que os derrames de média dimensão começaram a persistir durante semanas a fio. Em 2013, já se tinham tornado permanentes.
Desde então, pelo menos 19 barris de petróleo parecem ter sido espalhados por 3 km² todos os dias no Bloco 15, de acordo com imagens de satélite. Ao longo deste período, isto representa um total acumulado de cerca de 90 000 barris ou 14 235 m³ no cenário mais conservador — um desastre comparável ao naufrágio do petroleiro Erika em 1999.
Um cenário, que o perito consultado considerou «possível», estima que o derrame atingiu os 711 750 m³, ou seja, cerca de 4,5 milhões de barris, o que se aproxima muito do derrame do desastre da plataforma offshore Deepwater Horizon. E alerta ainda que a análise por satélite consegue detetar a superfície do derrame de petróleo, mas não a sua espessura, que o derrame poderá até ser maior do que isso e que os exemplos mencionados se referem a libertações repentinas de petróleo, enquanto o caso que estamos a observar se estende por um período de 13 anos.
A discrepância entre estes dados e o registo oficial de Angola é gritante. Com base em sete anos de dados, a agência nacional de petróleo e gás ANPG relata uma média de apenas 450 barris derramados por ano, em todos os blocos offshore do país. Ou seja, uma fração do valor mínimo estimado apenas para o Bloco 15. Nem a ExxonMobil nem os seus parceiros divulgam os volumes de derrames discriminados por país, o que dificulta a verificação independente — a análise por satélite tornou-se uma das únicas ferramentas disponíveis para as comunidades e os investigadores.
“A análise mostra provas abundantes de uma descarga contínua de petróleo que, com base em imagens de satélite, não existia antes de 2002, o que sugere que este petróleo flutuante é produzido por intervenção humana, dada também a proximidade às infraestruturas dos produtores de petróleo», comentou Oscar Garcia, geocientista e fundador da Water Mapping LLC, após analisar as conclusões.
«Impulsionado por correntes de superfície e pelo vento, um derramamento persistente como este pode definitivamente atingir a costa — um cenário que vimos acontecer de forma quase idêntica no Golfo do México e na Califórnia
A ExxonMobil atribui os derramamentos a uma infiltração natural. «Infiltrações naturais de hidrocarbonetos estão presentes nas águas offshore de Angola e são anteriores às operações da ExxonMobil no Bloco 15. Levantamentos identificaram infiltrações de ocorrência natural aproximadamente um quilómetro a norte das instalações de Kizomba A que são compatíveis com a mancha observada», disse o seu porta-voz. A empresa não respondeu ao nosso pedido de envio de uma amostra do petróleo derramado, a qual permitiria aos cientistas corroborar a sua tese sobre a infiltração natural.
«A ExxonMobil articulou-se com as autoridades competentes e continua a monitorizar a área e a avaliar os dados disponíveis.»
As próprias memórias dos residentes convergem com os registos de satélite. Estes recordam os maiores derrames ocorridos em 2003, 2005 e 2025 em Cabinda, e em 2020 perto de Soyo, com derrames menores a ocorrerem de forma quase constante entretanto. «Até os nossos pais, que deixaram de lidar com este problema, morreram», disse José, um pescador de Cabinda. O seu colega António, refletindo sobre os 52 anos que passou a pescar nestas águas, foi mais direto: «Temos extração de petróleo e derrames desde 2003 e agora estamos em 2026. O problema aqui com a pesca é este: estamos completamente lixados.»
A análise dos dados relativos aos ventos e correntes predominantes em torno do Bloco 15 corrobora o testemunho dos residentes de que uma parte dos derrames detetados provavelmente chega à costa.
Quem é o responsável
Apesar deste historial, a ExxonMobil e os seus parceiros viram-se a beneficiar de uma prorrogação da sua licença de produção para o Bloco 15 no ano passado, mantendo a operação de campo até 2037. «E como é que vamos aguentar?», perguntou Pedro Neto, pescador do Zaire, enquanto o grupo de pescadores levava as mãos à cabeça ao saber da prorrogação. «Como é que vamos lidar com todo este petróleo?»
O Bloco 15 é apenas um dos pelo menos 14 blocos offshore atualmente em produção ao longo da costa de Angola. Os residentes acreditam que o efeito cumulativo de toda esta atividade está a causar derrames que, muitas vezes, não podem ser atribuídos a uma única fonte. A Chevron, com sede nos EUA, que opera o Bloco 0 ao largo de Cabinda, faz parte deste padrão mais alargado e tem estado envolvida na resposta a derrames na área. Juntos, os Blocos 15 e 0 representam quase 30% da capacidade total de produção de petróleo de Angola, de acordo com dados da ANPG para 2025, tornando-os num pilar central de um Estado petrolífero ainda fortemente dependente da economia do crude.
Petróleo: uma riqueza que não se redistribui
Como terceiro maior produtor de África, a economia de Angola depende profundamente da extração de combustíveis fósseis. «A economia angolana move-se ao ritmo da indústria petrolífera», afirmou o economista Carlos Rosado Carvalho. «Se a indústria petrolífera vai bem, a economia prospera. Se a indústria petrolífera enfrenta dificuldades, toda a economia sofre.»
O país extrai pouco mais de um milhão de barris de crude por dia, gerando 60% de todas as receitas do Estado. No entanto, essa riqueza mal chega às pessoas que vivem junto a ela: mais de 53% dos angolanos vivem com menos de 3,65 dólares por dia, o limiar de pobreza do Banco Mundial para países de rendimento médio-baixo.
Em Soyo e Cabinda — as regiões que geram a maior parte da riqueza fóssil do país — as longas filas para abastecimento são comuns: «Podemos esperar até três horas», diz um residente local. O governo limita o preço oficial a 420 kwanzas (0,40 €) através de subsídios, mas os postos de abastecimento ficam frequentemente sem combustível e, quando isso acontece, os residentes recorrem ao mercado negro, onde o mesmo combustível pode custar o triplo do preço oficial. Nas aldeias remotas e isoladas, mais ao longo da costa, os preços sobem ainda mais. E é o recurso que os residentes têm dificuldade em comprar que se pensa estar a destruir a sua pesca e colheitas.
O petróleo extraído destas águas não fica em Angola. Pelo menos 13 países — incluindo a China, a Índia, os Estados Unidos, o Canadá, a Espanha e a Itália — receberam remessas, com mais de 370 milhões de barris enviados para refinarias e instalações na Ásia, América do Norte e Europa ao longo dos anos em que estes derrames ocorreram, de acordo com dados comerciais da Kpler.
As atividades offshore ameaçam um ecossistema marinho rico e variado. Os pequenos peixes pelágicos, incluindo o carapau do Cunene, representam a maior parte da pesca comercial de Angola, enquanto espécies migratórias de maior porte, como o atum, também passam pelas suas águas.
Para além das populações de peixes comerciais, estas águas abrigam peixes-boi, golfinhos e baleias-jubarte que migram para as zonas de reprodução ao largo do Gabão. As espécies demersais também estão amplamente distribuídas ao longo da costa, em águas com menos de 200 metros de profundidade, enquanto as tartarugas marinhas ameaçadas de extinção habitam as águas costeiras e dependem da linha costeira adjacente para nidificar.
O litoral de Angola abrange habitats importantes, incluindo mangais e leitos de ervas marinhas, com corais de águas frias encontrados mais ao largo. Pelo menos oito espécies estão associadas aos mangais da região, duas às ervas marinhas e duas aos corais de águas frias.
«Há dias em que nem sequer comemos»
Para todos os que vivem ao longo desta costa, as consequências dessa lacuna medem-se em quilos de peixe, não em barris de petróleo. «Há dias em que nem sequer comemos… todos os dias estamos no mar», disse João. «Costumávamos voltar para casa com 30 quilos de pesca. Há três dias, voltei sem nenhum peixe.» As sardinhas e a corvina, outrora alimentos básicos, «diminuíram drasticamente». «Quando há um derrame “normal” durante três a quatro dias, não apanhamos peixe, mas agora, desde 4 de junho [menos de um mês antes da nossa visita], não temos tido qualquer peixe», acrescentou Raul.
As duas comunidades de Cabinda enfrentam os mesmos problemas. «Depois de [um] derrame, não pudemos pescar durante três meses, o mar não estava bom», disse o pescador José. Pescadores de outra comunidade de Cabinda explicam que, por vezes, os peixes que apanham já estão mortos ou cheiram a óleo quando os abrem, mas comem-nos na mesma.
Quando o peixe escasseia e as colheitas estão arruinadas, a comunidade recorre às folhas de mandioca como fonte de proteína. O kizaka, um guisado angolano feito de folhas de mandioca trituradas, óleo e amendoim, é um alimento básico para muitos durante estes períodos. Mas nem mesmo esse recurso de emergência é fiável: «Os nossos campos estão podres… Quando as recolhemos, muitas vezes já estão podres, com insetos por dentro e aquele cheiro a fermentado», disse João, com os residentes de Cabinda a concordarem. Noutra comunidade de Cabinda, dizem que as laranjas e as tangerinas já nem sequer crescem.
A nutrição limitada é agravada pela falta de acesso a água potável. «A água aqui é só sofrimento», acrescentou Pedro Neto. «Há cinco anos que não temos distribuição de água potável filtrada; bebemos água diretamente do rio.»
O impacto na saúde
Enfermeiras do Zaire e o antigo secretário da Saúde de Cabinda disseram à Voxeurop que os registos de doentes revelavam aumentos de gripe, infeções cutâneas, malária e doenças gastrointestinais — aumentos que associaram à poluição por petróleo, tanto na época quente como na fria. «Quando se observa um derrame na água, há uma maior frequência de gripe, doenças diarreicas agudas e vómitos», disse-nos uma enfermeira sob condição de anonimato, mostrando os registos de doentes. «As suas vidas dependem do mar.»
Relacionaram as doenças gastrointestinais, incluindo a intoxicação alimentar, ao consumo de peixe poluído do qual as comunidades dependem; as infeções cutâneas foram associadas à água do mar poluída. «Como entramos em água que está constantemente poluída, vemos algumas bolhas na nossa pele, mas precisamos de aceder à água de qualquer forma. O que é que vamos fazer?», disse Paulo, residente em Cabinda. Febre, obstipação, tosse e desidratação relacionada com a diarreia também eram comuns, sendo as crianças as que apresentavam os sintomas mais graves, de acordo com a enfermeira e a responsável pela saúde.
A Dra. Carlotta Tati, antiga secretária da Saúde de Cabinda — que se demitiu devido ao que descreveu como corrupção e uso indevido de recursos públicos — afirmou ter observado um aumento nos casos de cancro que associa à extração de petróleo, acrescentando que as autoridades estatais não acompanham formalmente estes dados. Atualmente, trabalha numa clínica privada e aspira a investigar questões de saúde que afetam Angola. «Há já muito tempo que ninguém estuda as causas destes cancros, mas a incidência aqui é muito elevada», disse ela ao Voxeurop.

Descreveu taxas elevadas de cancro do fígado, que associa a alimentos contaminados, e de cancro do pulmão entre trabalhadores do setor petrolífero de longa data. «Aqui, pessoas de 41 anos estão a morrer desta doença, e não somos uma população de fumadores.» É importante referir que nenhum estudo epidemiológico estabeleceu uma relação causal entre a extração de petróleo local e estas taxas de cancro em Angola; as observações da Dra. Tati refletem os seus registos clínicos, que ela não pode divulgar, e não uma investigação formal de saúde pública.
«O nosso oceano está tão poluído que, pessoalmente, não nado nele», acrescentou.
«As crianças gostam de ir à praia, mas sofrem constantemente de problemas de pele. O nosso mar não é límpido e azul, é água castanha e turva. Muitas pessoas têm problemas de pele e, por vezes, também já vimos alguns casos de cancro da pele aqui.»
Mas em Cabinda, o acesso aos cuidados de saúde é limitado. Os residentes afirmam que o posto de saúde local está disponível para consultas, mas não para os exames necessários para determinar a medicação correta. «Às vezes, dão-nos medicamentos sem fazerem exames», disse Francisco. «Mas não é assim que funciona, é preciso fazer os exames para obter a receita certa… Não podemos confiar no posto de saúde, cada um tem de se esforçar para cuidar da sua saúde através de clínicas privadas.»
Os residentes das províncias do Zaire e de Cabinda descrevem um impacto físico mais imediato causado pela própria poluição: o cheiro. «Mesmo quando estamos longe, na floresta, conseguimos cheirá-lo, normalmente por volta das 15h ou 16h. É o cheiro habitual a ovos podres, que nos causa náuseas», disse Francisco. No entanto, continuam a trabalhar. «A nossa energia mantém-se. Tem de continuar.»
A discrepância entre o que se diz e o que se faz
As empresas que operam nestas águas descrevem os seus registos de segurança em termos absolutos. A vários milhares de quilómetros ao largo da costa de Angola, a empresa ExxonMobil, sediada no Texas, afirma ter uma «mentalidade de zero derrames.» A linguagem é inequívoca: «Ninguém é prejudicado.» A Equinor afirma que a sua «visão é zero danos.» No Reino Unido, a BP afirma operar «sem acidentes, sem danos para as pessoas e sem danos para o ambiente». Em Itália, a ENI trabalha para «reduzir os acidentes a zero e salvaguardar as pessoas, o ambiente e os ativos.» A filial angolana da Chevron, a Cabinda Gulf Oil Company, indica que «Proteger as pessoas e o ambiente» é um dos seus valores fundamentais.
A legislação angolana não deixa isto ao critério de um compromisso voluntário. O Decreto Executivo n.º 11/05 exige que qualquer derrame superior a um barril — ou qualquer impacto ambiental significativo — seja comunicado. Todas as empresas devem dispor de planos de prevenção de derrames e tomar «medidas adequadas e eficazes» para controlar e limpar qualquer derrame, incluindo «solicitar assistência a outras empresas petrolíferas», se necessário. As empresas que não cumprirem estas disposições enfrentam multas entre 5000 e 500 000 dólares, ou a suspensão total das atividades de extração. Todas as empresas proprietárias de um bloco — e não apenas a operadora — são solidariamente responsáveis. Os ministérios do Ambiente, do Petróleo e das Pescas são conjuntamente responsáveis pela preparação e resposta a derrames de petróleo, enquanto a ANPG é responsável pelo cumprimento regulamentar e pela supervisão de todas as operações petrolíferas.
A «bomba de carbono» angolana
O setor do petróleo e do gás é responsável por mais de 80% das emissões domésticas de CO₂ de Angola, e a sua pegada climática global estende-se ainda mais quando o crude exportado é queimado no estrangeiro. O dióxido de carbono (CO₂), o gás com efeito de estufa mais abundante responsável pelo aquecimento global, representa cerca de dois terços das emissões de gases com efeito de estufa e, de acordo com o Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas, é produzido principalmente pela combustão de combustíveis fósseis.
Ao longo da sua história operacional, o Bloco 15 produziu cerca de quatro mil milhões de barris do equivalente de petróleo. Ao contabilizar as emissões ao longo de todo o ciclo de vida destas reservas (da extração à combustão), o projeto apresenta uma pegada climática global superior ao limiar de uma gigatonelada — mil milhões de toneladas — necessário para classificá-lo como uma «bomba de carbono».
«As emissões de gases com efeito de estufa de um país com a dimensão de uma bomba de carbono como Angola são enormes», afirmou Kjell Kühne, diretor da ONG Leave It In the Ground Initiative (LINGO). «Um único campo petrolífero como o Bloco 15, ao longo da sua vida útil, pode gerar tanto CO₂ quanto as principais economias industriais, como a Alemanha ou o Reino Unido, emitem ao longo de vários anos».
Neste contexto jurídico, os próprios relatórios de sustentabilidade das empresas descrevem operações notavelmente limpas. No seu mais recente relatório de sustentabilidade, a ExxonMobil declarou zero derrames de petróleo relacionados com embarcações a nível global, a par de uma média de 267 incidentes não marítimos anuais nas suas operações mundiais ao longo dos últimos cinco anos. A Eni relatou apenas 10 derrames acidentais nos seus campos não operados — onde detém uma participação financeira, mas deixa as operações diárias a cargo de um operador — a nível global em 2024 e 2025, totalizando 321 barris. A BP declara 110 derrames de petróleo em 2025, dos quais conteve 57. A Equinor apresenta um indicador de incidentes, relatando um valor geral de 0,58 para a «frequência mensal de derrames de petróleo e fugas de gás.» Para 2025, a ANPG relatou apenas 20 barris em três incidentes a nível nacional. (1)
Esta discrepância entre os derrames comunicados pelas empresas petrolíferas e pela ANPG deve-se, em parte, à forma como as empresas europeias são obrigadas a comunicar. As Normas Europeias de Relato de Sustentabilidade exigem que as empresas da UE divulguem os impactos ambientais e de governação — mas não de forma universal, e sim a nível nacional. «A divulgação de derrames específica por localização não é uma obrigação universal», confirmou o Grupo Consultivo Europeu para o Relato Financeiro (EFRAG) à Voxeurop, acrescentando que este nível de pormenor só é exigido quando uma empresa considera a informação «material» — uma determinação deixada, em grande parte, a critério da própria empresa
«A administração local tem conhecimento de tudo», afirmou António, um membro especialmente respeitado de uma das comunidades de Cabinda. «Já estamos a sofrer. As pessoas que deviam estar a resolver os problemas da população não estão aqui.»
Mão-de-obra barata, sem recurso
Quando os derrames são suficientemente grandes para exigirem limpeza, os pescadores dizem que é a eles que pedem frequentemente para o fazer como «trabalho voluntário», de forma informal, com equipamento limitado e por uma remuneração irrisória. Os recibos a que a Voxeurop teve acesso mostram que, após um grande derrame em 2025, a Chevron — que opera o Bloco 0 ao largo da costa do enclave angolano de Cabinda através da sua subsidiária, a Cabinda Gulf Oil Company Limited — recrutou residentes locais para limpar a praia por cerca de 200 dólares durante duas semanas, descrevendo o acordo como «atividades voluntárias com pagamento voluntário.» A documentação revelou que a empresa negou qualquer responsabilidade pelo derrame. Aos trabalhadores foram fornecidas botas de borracha básicas, luvas e máscaras, mas não lhes foram oferecidos contratos formais nem seguro, relataram. Uma ambulância foi mantida em estado de alerta.
Noutros locais ao longo da costa, os pescadores descrevem acordos semelhantes após outros derrames: contratação informal, remuneração mínima e equipamento que nunca é substituído. «Depois do derrame, já não conseguíamos trabalhar; pedimos um novo conjunto de redes de pesca, mas nunca as recebemos», disse João, outro pescador do Zaire, acrescentando que alertaram as autoridades locais de que o derrame tinha chegado a três ou quatro metros da costa. «Sofremos com estes derrames todos os dias.»
Uma moradora local grava o petróleo chegando à praia perto de Soyo em maio de 2026. C| réditos: Vídeo fornecido pela comunidade local de pescadores
O caso da Chevron e a limpeza voluntária
A Chevron já enfrentou consequências formais no passado: o governo angolano já tinha multado a empresa devido a um incidente ambiental no Soyo. No sul de Cabinda, um consórcio de mais de 1000 pescadores locais continua a lutar em tribunal por uma indemnização por um derrame catastrófico de 2005 que levou à suspensão das suas atividades de pesca durante três meses. De acordo com os autos do processo, a Chevron enviou um helicóptero com um perito ambiental da própria empresa a bordo, que acabou por afirmar que a mancha escura não era uma mancha de petróleo, mas sim uma proliferação de algas em grande escala.
Hélder da Cruz, o advogado dos pescadores, argumenta que o próprio atraso é prova de que algo está errado: «Hoje em dia, estão a ser tomadas medidas neste processo que não são processuais, mas sim extrajudiciais», afirmou ao Voxeurop. «Há especulação e ganância por parte de indivíduos não identificados envolvidos no processo que, infelizmente, têm vindo a atrasá-lo.» «Se a Chevron for considerada responsável pela poluição dos mares ao largo de Cabinda, isso criaria um precedente. Penso que é isso que a Chevron quer evitar; está a fugir às suas responsabilidades apenas para proteger a sua imagem», acrescentou.
Se o caso vier a ser resolvido a seu favor, os pescadores dizem que esperam utilizar a indemnização para abrir uma farmácia e melhorar os seus meios de subsistência na pesca e na agricultura.
Em resposta à Voxeurop, um porta-voz da Chevron declarou: «A Chevron está empenhada em operações seguras e responsáveis, e em proteger as pessoas, as comunidades e o ambiente.»
O ângulo morto regulamentar
O caso da Chevron está parado há duas décadas, em parte porque nada fora dos próprios tribunais de Angola está a forçar uma resolução. Como a declaração da EFRAG acima deixa claro, as regras de divulgação da UE não exigem que as empresas comuniquem derrames a nível nacional — deixando comunidades como a dos pescadores de Cabinda com pouca influência externa, mesmo quando as regulamentações do próprio país de origem da empresa são, no papel, robustas.
A lacuna em matéria de responsabilização não é apenas judicial. É estrutural, inerente à forma como — e se — este tipo de danos chega a ser comunicado.
No entanto, para as pessoas que vivem com isso, nada disto é abstrato.
«Lembrem-se de nós. Sofremos com o petróleo»
«Aqui estamos muito expostos aos blocos de exploração; qualquer gota [de petróleo] derramada em águas profundas… chega até aqui», disse Mateus, um pescador de uma comunidade de Cabinda, num tom de resignação. «Devíamos ser indemnizados pelos danos que sofremos, pelo menos pelo equipamento. Aqui há derrames maiores, mas também outros mais pequenos que são constantes — por esses, ninguém assume a responsabilidade.»
«Não estamos a pedir atenção constante; o país é grande. Tal como nós, há muitas pessoas necessitadas, mas pelo menos um pouco de atenção por parte do executivo; lembrem-se de nós, sofremos com o petróleo», acrescenta Mateus. «Há muitos jovens aqui que trabalham nos campos petrolíferos, conhecem os segredos do petróleo. O que nos está a afetar muito é o equipamento; precisamos de redes.»
*Todos os nomes foram alterados e os nomes das comunidades individuais omitidos por razões de segurança.
- A BP, a Azule Energy, a ANPG, o Ministério da Saúde e o Ministério do Ambiente de Angola não responderam aos pedidos de comentário. A Equinor remeteu quaisquer comentários para a ExxonMobil. Um porta-voz da Eni declarou que a «Eni não tem qualquer interesse direto no ativo» e remeteu as questões relativas às operações do Bloco 15 para a Exxon, a operadora.
🛰️ A deteção por satélite do derrame de petróleo em Kizomba A e todas as análises das imagens relacionadas foram realizadas pelo investigador independente Guillermo Tamburini-Beliveau, cujas descobertas constituíram o ponto de partida da investigação.
🤝 Esta investigação contou com o apoio de Journalismfund Europe.

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